O poder de quem governa não se mede apenas pela caneta (bic azul) que assina decretos; mede-se pela eficácia com que consegue transformar a vontade alheia em extensão de seus próprios interesses. Uma figura acostumada a operar através de “laranjas” — sejam eles financeiros ou ideológicos — jamais suja as próprias mãos. O crime, para o covarde no poder, é uma tarefa que sempre exige o outro. Ao terceirizar a execução de seus impulsos, o incitador e articulador constrói uma proteção blindada: ele ordena o caos, cultiva o ódio e, no momento em que a barbárie se materializa, retira-se para o papel de espectador, lavando as mãos enquanto o sangue ou a ruína do Estado escorrem por dedos alheios.
Essa dinâmica justifica, plenamente, o enquadramento do ex-presidente como incitador e articulador. Ele não apenas emite uma opinião; ele atua como o engenheiro de um ecossistema onde o crime se torna a única saída lógica para os seus seguidores. Ao deslegitimar as urnas ou tratar a ciência com escárnio, ele não está apenas falando, está dando permissão e pavimentando o caminho para o ilícito. É a aplicação prática do conceito de violência simbólica de Pierre Bourdieu: o líder impõe uma visão de mundo tão autoritária que seus seguidores passam a agir sob a égide dessa “verdade”, sacrificando sua própria moralidade para servir a um projeto de poder que, na prática, os despreza.
A história está repleta de articuladores que, como ele, utilizaram a retórica para instigar multidões.
- Joseph McCarthy (Macarthismo, EUA): Utilizou o poder do cargo para criar um clima de paranoia paralisante. Ele não perseguia os “inimigos” diretamente; ele instigava a sociedade à delação, destruindo carreiras e vidas ao transformar o medo do comunismo em uma arma de perseguição pessoal, enquanto ele próprio colhia o poder político dessa instigação.
- A “Punhalada pelas Costas” (Alemanha pós-1ª Guerra): Líderes nacionalistas convenceram uma nação inteira de que a derrota não veio das forças armadas, mas da traição de “inimigos internos”. Esse discurso criou o ambiente onde o cidadão comum, acreditando ser um patriota, sentiu-se autorizado a cometer atrocidades contra seus vizinhos. O líder, novamente, apenas acendia o fósforo e assistia ao incêndio.
- A Teoria do Domínio do Fato: No Direito Penal, essa teoria é o antídoto jurídico contra essa covardia. Ela reconhece que o “homem de trás” é o verdadeiro autor, pois quem domina a estrutura e manipula o executor é, em última análise, o dono do crime.

Por fim, o uso de “laranjas” para ocultar patrimônio e o uso de “seguidores” para cometer barbáries são dois lados da mesma moeda: a recusa em arcar com as consequências dos próprios atos. O incitador e articulador que aponta para o abismo e empurra os outros é, em qualquer tribunal da história ou da justiça, tão culpado quanto aquele que cai. Ele não é um líder; é um titereiro – (marionetista que manipula bonecos ligados por fios) – que, escondido nas sombras, usa a mão alheia para manter seu lucro, seu ego e seu projeto de poder intocados.
As melhores formas de encontrar documentos e estudos detalhados sobre o que debatemos aqui são:
1. Joseph McCarthy e o Macarthismo
- National Archives (NARA – EUA): O site oficial dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos possui uma seção dedicada a documentos da era da Guerra Fria, incluindo transcrições de audiências do comitê de McCarthy.
- Senate.gov: O portal do Senado Americano mantém um arquivo histórico sobre as investigações do Comitê de Atividades Antiamericanas, com relatos sobre o impacto político do senador McCarthy.
- Biblioteca do Congresso (Library of Congress): Disponibiliza digitalizações de jornais da época e fotografias que ilustram o clima de paranoia daquele período.
2. A “Punhalada pelas Costas” (Dolchstoßlegende)
- Bundesarchiv (Arquivo Federal da Alemanha): É a fonte primária para documentos sobre a República de Weimar. Eles possuem vastos registros sobre a propaganda nacionalista que alimentou o mito da “Punhalada pelas Costas” após a Primeira Guerra Mundial.
- Estudos de História Militar: O site da German Historical Institute oferece ensaios acadêmicos traduzidos e documentos originais que contextualizam como esse mito foi usado por grupos paramilitares e partidos políticos para desestabilizar a democracia alemã.
- Europeana: Um portal que agrega arquivos de diversas bibliotecas europeias, permitindo buscar panfletos e cartazes políticos da Alemanha entre 1918 e 1933.
3. A Teoria do Domínio do Fato
- Scielo e Google Acadêmico: Para entender o aspecto jurídico, estas são as melhores plataformas para buscar artigos científicos de juristas renomados (como Claus Roxin, autor da teoria). Procure por termos como “autoridade mediata” ou “domínio da organização”.
- Repositórios de Faculdades de Direito: Universidades brasileiras como a USP, UFMG e outras mantêm repositórios digitais com teses e dissertações que aplicam a Teoria do Domínio do Fato em casos criminais complexos.
- Jurisprudência do STF: O portal do Supremo Tribunal Federal permite a consulta de acórdãos, onde é possível verificar como ministros utilizaram a teoria para fundamentar condenações de réus que ocupavam posições de comando, mas não participaram diretamente dos atos criminosos.
#pracegover – Uma ilustração detalhada, renderizada em estilo clássico de hachuras a lápis com suaves lavagens de aquarela, com bordas irregulares e emolduradas que mostram a textura do papel branco. A cena se passa em um opulento e grandioso escritório ou sala de governo, com pesadas cortinas de veludo e uma bandeira do Brasil sutilmente visível ao fundo. O ambiente tem tons suaves de sépia e cinza, com toques de cor na roupa da mulher e na bandeira. No primeiro plano, sentado atrás de uma grande e ornamentada mesa de mogno, está um homem de meia-idade, de constituição robusta e cabelos grisalhos ralos, com uma expressão severa e cínica. Ele veste um terno marrom e gravata. Sua mão direita, segurando uma caneta BIC clássica (corpo transparente, tampa azul), está preparada para assinar um documento oficial na mesa. A mesa está desordenada com pilhas de papéis, pastas e alguns maços de dinheiro. Sua mão esquerda está levantada, manipulando um complexo conjunto de fios e cordas invisíveis que se estendem até uma marionete em pé sobre a mesa. A marionete é uma figura de um homem mais jovem, vestindo a camisa amarela da Seleção Brasileira de Futebol e shorts azuis, com a palavra “BRASIL” visivelmente estampada na camisa. A marionete está de pé, com os membros articulados, sob total controle do homem sentado. No lado direito da imagem, a uma distância considerável mas observando a cena com uma expressão de choque e horror, está uma heroína. Ela é uma mulher de cabelos longos e castanhos levemente ondulados, seus olhos estão arregalados e a boca ligeiramente aberta em espanto. Ela usa um vestido rosa de alças finas, um casaco de motoqueiro de couro preto aberto e sapatos de salto alto tipo scarpin pretos. Nas costas, ela carrega uma grande e detalhada bazuca, decorada com um padrão de brilhos e arco-íris ao longo de seu cano e mecanismo. Ela parece ter sido pega de surpresa ao entrar na sala e presenciar a manipulação.
Jhullia Matos
10/07/2026