Durante muito tempo, vivi imersa em grupos de oração, reuniões e estudos bíblicos. Naquela época, eu era uma pessoa simples, com pouco acesso à leitura profunda, e acolhia aquele ambiente como um porto seguro. Era um espaço de afeto e contato com o espiritual, mas que trazia consigo um lado sombrio: a semente do medo. Lembro-me claramente de como nos ensinavam a odiar Paulo Freire e a demonizar a Teologia da Libertação. Criavam um pavor da palavra “revolução” e de qualquer pensamento que sugerisse contestação. Hoje, com a leitura e a vivência que acumulei, vejo a profunda desonestidade intelectual daquela abordagem. O objetivo não era proteger a nossa fé, mas nos manter no silêncio e na obediência cega.
À medida que compreendi minha identidade, me reconheci como mulher e me afirmei no mundo, carreguei por anos a ideia de que eu era uma transgressora. Eu achava que tinha quebrado todos os dogmas e rompido com a igreja por estar em “pecado”. Afinal, era isso que o fundamentalismo me dizia: que a minha existência não cabia ali.
No entanto, uma chave virou dentro de mim. Percebi que, apesar de tudo, eu nunca deixei de amar a Deus. Eu continuava rezando, buscando a presença divina e sentindo o Criador ao meu lado. Se eu não tinha rompido os laços com o sagrado, como poderia ter destruído a minha fé? Foi aí que a ficha caiu: eu não rompi com os dogmas, eu simplesmente passei uma bela de uma peneira neles.
Passar a peneira significou separar o entulho humano do ouro divino. Deixei para trás a culpa, o preconceito, a manipulação e o controle. Fiquei apenas com o que me salva, o que me resgata e o que me reconecta de verdade com o Criador. O véu da manipulação se desfez quando percebi que o ódio jogado sobre pensadores da libertação era, na verdade, medo de que a gente aprendesse a pensar.

Essa descoberta encontra um eco perfeito no pensamento do próprio Paulo Freire em A Importância do Ato de Ler, quando ele diz que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Eu precisei primeiro ler a minha realidade, o meu corpo e a minha vida para depois entender que a “palavra” que me ensinavam na igreja estava distorcida pelo controle. Freire também nos lembra em Pedagogia do Oprimido que a libertação é um parto, e que “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. A minha fé deixou de ser um silêncio imposto para virar uma ação consciente.
Outros pensadores ajudam a iluminar esse caminho. O teólogo Rubem Alves nos lembra que a religião e o sagrado vão além das estruturas institucionais rígidas, ligando-se à nossa busca humana por sentido, esperança e libertação. Já a educadora bell hooks mostra que a prática do amor e do autoamor é uma força fundamental de resistência contra a dominação, essencial para a construção da nossa verdadeira liberdade.
Ao unir essas pontas, percebi até a autonomia do meu próprio organismo. Meu cérebro pensa, meu coração bate e meus pulmões respiram sem que eu precise apertar botão algum. Essa vida que pulsa em mim de forma autônoma é sustentada por Deus a cada segundo. Se a própria biologia do meu corpo é um ato contínuo da criação divina, como a minha identidade poderia estar errada?
Hoje, eu caminho com Deus de maneira inteira e certeira. Meu quarto é o meu altar principal, o meu espaço de intimidade onde mantenho minha conversa direta com Ele. Se quero ir à missa, vou de cabeça erguida; entro com Deus e saio com Deus, porque sei que a instituição não é dona do Criador. Entendi que ter bom senso e respeitar os espaços não significa anular quem eu sou.
Eu não preciso pedir licença a ninguém para ser amada por Deus. A minha fé passou pela peneira, e o que ficou foi a liberdade, a paz e a certeza inabalável de que eu nunca caminhei — e nunca caminharei — sozinha.
Referências Bibliográficas
- ALVES, Rubem. O que é religião? São Paulo: Loyola, 1999.
- FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados; Cortez, 1989.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
- HOOKS, bell. All About Love: New Visions. New York: William Morrow, 2000.
#PraCegoVer: No centro da ilustração, uma mulher de vestido rosa e jaqueta preta mantém uma das mãos sobre o coração, de onde irradiam linhas douradas de luz, enquanto estende a outra mão sobre uma peneira luminosa. À esquerda, em tons escuros e frios, aparecem uma igreja imponente em ruínas, figuras acorrentadas e pedras, papéis e livros com palavras como “culpa”, “medo”, “obediência cega”, “pecado”, “dogmas distorcidos” e “verdades absolutas e excludentes”, representando aquilo que foi rejeitado após passar pela peneira. A peneira deixa cair para o lado direito pequenos grãos luminosos de esperança e luz, que se transformam em vida, flores e símbolos de renovação. À direita, o cenário se abre em uma paisagem iluminada, com uma grande árvore cujas folhas se misturam a páginas de livros contendo palavras como “amor”, “liberdade”, “diálogo”, “compaixão”, “acolhimento”, “empatia” e “verdade que liberta”; pombas brancas voam sob um arco-íris, simbolizando paz, espiritualidade e liberdade. A composição representa a separação entre o medo e a opressão construídos pelo homem e aquilo que permanece como fé, esperança, amor e conexão direta com o divino.
Jhullia Matos
01/09/2026