O nosso nome é a primeira coisa que nos apresenta ao mundo. É por ele que as pessoas nos chamam, nos reconhecem e nos enxergam. Para a população trans e travesti, no entanto, o nome registrado no nascimento muitas vezes vira um cativeiro simbólico — uma certidão que impõe uma identidade que não nos pertence. A luta para mudar esse registro civil não é vaidade nem capricho burocrático; é a base da nossa cidadania, da nossa segurança e da nossa própria dignidade.
A minha história é atravessada por essa busca por libertação. Minha transição começou um pouco mais tarde, na fase adulta — com apenas um ano de hormonioterapia e no final das sessões de laser no rosto —; embora meu corpo já estivesse passando por transformações visíveis, meus documentos continuavam apresentando ao mundo uma identidade que já não correspondia à maneira como eu era reconhecida nem à maneira como eu própria me reconhecia. A dor e o constrangimento de apresentar um documento com foto e nome que não combinavam comigo em farmácias, bancos ou recepções de médicos feriam profundamente a minha dignidade.
A virada de chave aconteceu em 2018, quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu, na ADI 4275, o direito de pessoas trans à alteração de prenome e gênero no registro civil, independentemente de cirurgia ou autorização judicial. Naquele mesmo ano, o Conselho Nacional de Justiça regulamentou o procedimento por meio do Provimento nº 73. Quando finalmente retifiquei meu documento, apenas oficializei perante a lei aquilo que Deus e minha consciência já sabiam há muito tempo: eu sou e sempre fui a Jhullia. A alteração no papel me deu a proteção da lei e o reconhecimento jurídico de como a sociedade deve me tratar. Isso tem um valor que não se mede, porque desrespeitar deliberadamente nosso nome não é simplesmente uma “opinião”: dependendo das circunstâncias, pode configurar discriminação, violação de direitos e até crime.
A urgência dessa conquista fica ainda mais clara quando olhamos para quem veio antes de nós. O caso de Roberta Close é um dos exemplos mais marcantes do Brasil. Mesmo sendo uma das figuras públicas mais famosas do país, conhecida no mundo todo, e tendo feito a cirurgia de redesignação sexual em 1989, ela enfrentou dezesseis anos de maratona judicial até ter seu nome e sexo civil retificados, em 2005. Em sua biografia e em relatos públicos, Roberta descreveu com frequência o constrangimento de circular pelo mundo com documentos que não refletiam sua imagem real. Essa trajetória explicita o tamanho da violência institucional que a comunidade trans enfrentou até o reconhecimento desse direito pelo Supremo Tribunal Federal em 2018.
Essa ponte entre o nome que carregamos e quem realmente somos também é debatida pela filosofia. O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Embora o filósofo não estivesse discutindo a identidade de gênero, sua formulação nos permite pensar sobre o poder que a linguagem exerce sobre a maneira como somos reconhecidos socialmente. Quando o Estado impede alguém de ser reconhecido pelo nome que reivindica para si, ele pode acabar encolhendo o mundo social e a existência pública dessa pessoa. As reflexões de Jacques Derrida sobre o nome, a nomeação e aquilo que o nome procura designar também nos permitem pensar sobre a relação entre identidade, reconhecimento e poder institucional. A partir dessa perspectiva, reivindicar o próprio nome pode ser compreendido não apenas como uma escolha individual, mas como uma forma de disputar o direito de existir socialmente sob a identidade que se reconhece como própria.

Mas essa conquista vai muito além da lei ou da filosofia; para mim, ela toca o fundo da alma. A retificação é uma conquista civil para todos que dela necessitam; para algumas pessoas, ela pode também adquirir um significado espiritual profundo.
Na tradição bíblica, o nome pode assumir um significado profundo nos momentos de transformação, vocação e aliança. Abrão passa a ser chamado Abraão; Sarai, Sara; Jacó recebe o nome Israel; e Simão é chamado Pedro. O profeta Isaías registra essa promessa de restauração: “E chamar-te-ão por um nome novo, que a boca do Senhor designará” (Isaías 62:2). Já no livro de Apocalipse, essa promessa ganha um tom ainda mais íntimo: “Ao que vencer… dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe” (Apocalipse 2:17).
Uma perspectiva teológica comprometida com a libertação nos ajuda a enxergar essa experiência sem o peso de dogmas sufocantes. A reflexão da teóloga Ivone Gebara sobre uma teologia comprometida com a experiência concreta das pessoas e com a crítica às estruturas de opressão também oferece uma chave para pensar a fé como espaço de libertação. Já o teólogo Paul Tillich, em A Coragem de Ser, pensa a coragem como afirmação do próprio ser diante das ameaças que procuram negá-lo. Essa perspectiva me ajuda a compreender a retificação do meu nome como uma forma concreta de afirmar minha existência. Assumir meu nome perante a sociedade foi a minha maior resposta ao amor de Deus, o meu ato supremo de coragem de ser.
Essa transformação também move o meu trabalho na arte. Quando atuei no curta-metragem Amor em Cores, interpretando a busca da personagem Talita pela mudança do seu nome, levei para a cena a vivência real que senti na pele. Quando essa experiência chega à arte, ela deixa de ser apenas minha. A cena passa a carregar a experiência de tantas pessoas que precisaram explicar o próprio nome, justificar o próprio corpo ou provar a própria existência diante de instituições que deveriam simplesmente reconhecê-las. Levar essa história para a tela é uma forma de mostrar a outras pessoas trans que o direito ao respeito e ao próprio nome é real e irrenunciável.
O nome retificado é a minha pedra branca, a promessa cumprida. Não se trata de apagar quem fui, mas de honrar a metamorfose que Deus operou na minha vida. O papel assinado no cartório é o reflexo terreno de uma aliança espiritual com a minha própria verdade: uma nova vida que exige, por justiça humana e por amor divino, a plenitude do meu nome. O cartório reconheceu aquilo que minha consciência já sabiam. A lei me devolveu a cidadania do meu próprio nome; minha fé me devolveu o sentido dessa conquista. Retificar o nome não é mudar quem somos, mas permitir que o mundo reconheça juridicamente quem sempre fomos.
Referências Bibliográficas
- BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
- BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Provimento nº 73, de 28 de junho de 2018. Dispõe sobre a averbação da alteração do prenome e do sexo nos assentos de nascimento e casamento de pessoa transgênero no Registro Civil das Pessoas Naturais (RCPN). Brasília, DF, 2018.
- BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4275. Relator: Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 01/03/2018.
- DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. Tradução de Nícia Adan Bonatti. Campinas: Papirus, 1995.
- FOLHA DE S.PAULO. Justiça do Rio decide que Roberta Close é mulher. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 mar. 2005. Cotidiano.
- GEBARA, Ivone. O que é Teologia Feminista. São Paulo: Brasiliense, 2007.
- RITO, Lúcia. Muito prazer, Roberta Close. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1998.
- TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. Tradução de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
- WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução, prefácio e notas de Luiz Henrique Lopes dos Santos. 3. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
#pracegover Ilustração em aquarela com traços detalhados. Uma mulher trans de cabelos castanhos longos e ondulados caminha sorridente saindo de um cartório tradicional, cujas portas de madeira estão abertas. Acima da entrada está escrito “CARTÓRIO REGISTRO CIVIL”, e ao lado da porta há uma placa de pedra com as palavras: “NOME, RESPEITO, DIGNIDADE, CIDADANIA, AMOR, LIBERDADE”. Ela veste um vestido rosa, jaqueta de couro preta e sapatos de salto alto. Em uma das mãos, segura com orgulho um documento intitulado “CERTIDÃO – NOME RETIFICADO”. Nas costas, carrega uma bazuca decorada com adesivos coloridos de estrelas, flores, um arco-íris e um símbolo da paz. Aonde ela pisa, um rastro brilhante de luzes e cores do arco-íris se espalha pelo chão de pedra. Ao fundo, árvores floridas em tons de rosa, pássaros azuis voando e flores coloridas completam a cena ensolarada.
Jhullia Matos
30/08/2026