Quem cresceu ou passou muito tempo dentro dos bancos de uma igreja — como eu, que vivi muito a realidade católica — sabe o tamanho do peso que colocam nas nossas costas. Ali dentro, parece que só existe uma receita de bolo para ser feliz e abençoada: casar na igreja, ter a família tradicional e seguir os papéis certinhos de “quem cuida” e “quem provê”. Se você não se encaixa nessa regra que os homens criaram, o sentimento de não pertencer é quase imediato. Dá uma frustração dolorosa.
Mas sabe o que a maturidade me ensinou? Que isso não faz ninguém ser mais ou menos de Deus. A gente precisa resgatar o verdadeiro sentido da palavra vocação. Vocação é um chamado da alma, é aquilo para o qual você nasceu para ser no mundo. E a verdade nua e crua é que tem muita gente que simplesmente não tem vocação para o casamento, e está tudo bem! Não casar não é um defeito de fabricação e nem uma falta de fé.

Até o próprio apóstolo Paulo, lá na Bíblia, já dizia que achava ótimo que as pessoas ficassem sozinhas se esse fosse o dom delas, porque cada um recebe de Deus um presente diferente [1]. Filósofos que pensavam a existência, como Kierkegaard, também batiam na tecla de que a nossa relação com o sagrado é individual, não depende da validação de uma instituição ou de um papel assinado [2]. E teólogos mais moderninhos e acolhedores, como o James Alison, lembram que o amor de Deus transborda justamente onde a burocracia da igreja falha em entender a diversidade humana [3].
Novas famílias e novos corpos existem, estão por aí transbordando afeto, e não precisam pedir licença ou bênção de cartório para serem legítimos e sagrados. Se o casamento tradicional não é para todo mundo, é porque o mundo é gigante. E como eu sempre gosto de dizer: tem lugar para todo mundo nesse mundo.
Referências Bibliográficas e Notas de Citação:
[1] BÍBLIA SAGRADA. Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, Capítulo 7, Versículos 7 e 8. Nota de conteúdo: No trecho citado, o apóstolo discorre explicitamente sobre as diferentes inclinações dadas pelo Criador, validando a solteirice e a ausência de união matrimonial como um estado de vida digno, proveitoso e espiritualmente pleno, quebrando a ideia de obrigatoriedade do casamento.
[2] KIERKEGAARD, Søren. O Ponto de Vista Explicativo da minha Obra como Escritor. Lisboa: Edições 70, 1986 (Original publicado em 1851). Nota de conteúdo: O filósofo existencialista cristão defende o conceito de “indivíduo singular” (den Enkelte), argumentando que a verdadeira relação com o divino ocorre na interioridade e na responsabilidade pessoal de cada ser, sendo independente do pertencimento a massas, coletividades sociais ou aprovações institucionais.
[3] ALISON, James. Fé Além do Ressentimento: Fragmentos católicos para conversações de homossexuais. São Paulo: É Realizações, 2010. Nota de conteúdo: O teólogo e padre católico James Alison trabalha a desconstrução de dogmas excludentes através de uma teologia da graça. Ele expõe como o amor e o pertencimento divino agem de forma livre e misericordiosa na vida de corpos e identidades que desafiam as estruturas e as burocracias eclesiásticas tradicionais.
#PraCegoVer: Ilustração em estilo desenho a lápis com delicados toques de aquarela e guache. A cena acontece no interior de uma grande catedral de arquitetura clássica, com altas colunas de pedra, arcos imponentes, vitrais coloridos e longas fileiras de bancos de madeira. No centro do templo, ao fundo, um altar ornamentado é iluminado por feixes de luz dourada que descem da cúpula superior, criando uma atmosfera de silêncio, contemplação e espiritualidade. Em primeiro plano, sentada sozinha em um dos bancos laterais, está uma mulher jovem de cabelos castanhos longos e ondulados. Ela veste uma jaqueta preta de couro, um vestido rosa claro e sapatos de salto alto. Sua postura é serena e reflexiva; as mãos repousam sobre o colo enquanto ela observa o altar à distância. Seu rosto demonstra introspecção, como se estivesse em busca de respostas ou reconciliação interior. Ao lado do banco, apoiado na madeira, encontra-se um grande lançador (bazuca) decorado com as cores do arco-íris, acompanhado por uma faixa de cápsulas coloridas atravessada sobre seu ombro. O objeto, que em imagens anteriores aparecia associado à ação e ao ativismo, está agora repousado e silencioso. A composição cria um forte contraste entre militância e contemplação. O cenário religioso, a luz suave e a solidão da personagem sugerem um momento de pausa após conflitos e jornadas pessoais. A imagem transmite temas de fé, reflexão, busca de pertencimento, esperança e diálogo entre identidade, espiritualidade e humanidade.
Jhullia Matos