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FORÇA E RESISTÊNCIA

Quando a gente começa a se descobrir no mundo, parece que todo mundo corre para nos dar um manual que a gente nunca pediu. Comigo foi bem assim. Me assumi tarde, lá pelos meus 27 anos, e quando entrei no universo da diversidade como um rapaz gay, dei de cara com um interrogatório que me parecia muito estranho: “Ativo? Passivo? Flex? Relativo?” Era tanta caixinha para o desejo…. Na filosofia e nos estudos sobre a sexualidade, cientistas e pensadores como Michel Foucault explicam que a nossa cultura tem uma obsessão quase cirúrgica em catalogar, classificar e dar nome a cada centímetro do prazer, como se precisássemos domesticar o que foge à regra. Naquele momento, eu estava sentindo essa engrenagem na pele.

Mas, com o tempo, entendi o jogo além da teoria. Aquela pergunta, por mais nua e crua que fosse, era uma tentativa sincera de evitar frustrações. O encontro precisava daquele alinhamento para que a mágica acontecesse sem decepções nos “finalmentes”. Havia uma honestidade prática ali.

Aí a vida dá voltas, eu me entendo e me assumo como mulher trans. E vou te confessar uma coisa: no fundo, eu achei que ia me livrar desse roteiro. Pensei: “Bom, agora eu sou uma mulher encontrando um homem que gosta de mulher. O padrão já está desenhado, cada um vai saber exatamente o que fazer na cama”. Doce ilusão. A gente cresce sob o mito da cis-normatividade — essa ideia de que corpos e papéis tradicionais já vêm com um “manual de instruções de fábrica” automático —, mas a verdade é que o desejo humano ignora qualquer script pré-programado.

A composição transmite um momento de questionamento após uma jornada de ativismo e enfrentamento. Em vez de conflito, a imagem destaca a vulnerabilidade da personagem diante dos desafios sociais ainda existentes, sugerindo uma reflexão sobre aceitação, pertencimento e os próximos passos na construção de uma sociedade mais inclusiva.
Heroína em seus questionamentos

A realidade veio e bateu na minha porta com a mesmíssima pergunta: “Ativa ou passiva?”. Descobri que muitos homens buscam uma trans ativa, e isso me deu um estalo definitivo sobre como a sexualidade humana não liga para regras rígidas. É o que teóricos de gênero chamam de “performance”: a gente encena papéis para a sociedade, mas, entre quatro paredes, essas barreiras costumam desabar. Pensadores contemporâneos defendem justamente isso: que o prazer real não deveria ser ditado pela anatomia ou por expectativas alheias. A vida prática me provou o que os livros tentam teorizar: o desejo é fluido, ele transborda o gênero e mora nos corpos de jeitos que mapa nenhum consegue prever.

Hoje em dia? Eu não me incomodo mais com essa pergunta. Pelo contrário, adoro fazê-la. Entendi que cada ser humano é um universo de fetiches, vontades e limites, e que um é completamente diferente do outro. Quando a gente bota as cartas na mesa, sabe o que quer e descobre o que o outro topa fazer, a sensação de liberdade é imensa. O sexo deixa de ser um campo de adivinhação, quebra os manuais engessados e vira um espaço de prazer real, consciente e sem disfarces. Dessa forma, os conceitos flutuam ao redor da sua história para abraçá-la, deixando nítido que o seu corpo e a sua jornada vieram antes da teoria.

Referências Bibliográficas

  • Judith Butler (Problemas de Gênero): Explica que o gênero e os papéis sexuais são performances repetidas que a sociedade nos impõe. Mesmo mudando a “categoria” (de rapaz gay para mulher trans), o sistema tenta criar novos roteiros performativos (como esperar que a mulher trans ocupe um papel específico na cama).
  • Michel Foucault (História da Sexualidade): Foucault explica como o Ocidente ficou obcecado em catalogar, classificar e dar nomes a cada prática sexual para tentar controlar os corpos. A engrenagem do “Ativo/Passivo/Flex” é exatamente essa engrenagem de classificação que ele critica.
  • Paul B. Preciado (Manifesto Contrassexual): Preciado defende que o prazer não deveria ser ditado pela genitália ou por papéis de gênero fixos. Ele conversa diretamente com o seu estalo de que “o desejo transborda o gênero e mora nos corpos de jeitos que a teoria não explica”.

#PraCegoVer: Ilustração em estilo desenho a lápis com suaves toques de aquarela e guache. Em primeiro plano, uma mulher jovem de cabelos castanhos longos e ondulados aparece sozinha em uma ampla praça urbana. Ela veste um vestido rosa claro e uma jaqueta preta de couro. Sua expressão é séria e reflexiva, com o olhar voltado para baixo, transmitindo dúvida, preocupação e introspecção. Nas mãos, ela segura uma bazuka (grande lançador) decorada com as cores do arco-íris. Diferentemente das cenas anteriores de ação, a arma está inativa e apontada para baixo, reforçando o clima de pausa e reflexão. O objeto traz inscrições relacionadas ao amor e à diversidade. Ao fundo, vê-se uma cidade moderna com prédios altos sob um céu azul claro. À esquerda, uma árvore solitária complementa a paisagem tranquila. O amplo espaço vazio ao redor da personagem enfatiza uma sensação de silêncio e contemplação. Acima de sua cabeça há um balão de pensamento contendo a frase: “Será que a cidade está pronta para esse tipo de amor? Tantas lutas… O silêncio delas ainda é real. O que vem a seguir?” A composição transmite um momento de questionamento após uma jornada de ativismo e enfrentamento. Em vez de conflito, a imagem destaca a vulnerabilidade da personagem diante dos desafios sociais ainda existentes, sugerindo uma reflexão sobre aceitação, pertencimento e os próximos passos na construção de uma sociedade mais inclusiva.

Jhullia Matos

31/05/2026

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