A proteção de um filho não termina quando ele sai pela porta de casa. Para pais de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e não binárias, o afeto doméstico precisa se transformar em posicionamento político e moral intransigente. Não há como desvincular o amor familiar da postura que adotamos no mundo. Apoiar candidatos que criam leis discriminatórias ou financiar instituições que atacam a existência dos nossos filhos não é uma escolha sem consequências: é colocar a integridade física e a própria vida deles em risco. A família não pode se omitir ou alegar isenção.
Essa corresponsabilidade se estende diretamente aos templos e altares. Não é possível rezar pela felicidade do seu filho em casa e, no domingo, sentar-se em um banco de igreja para ouvir e financiar discursos que o desumanizam. Quando pais e mães continuam frequentando, contribuindo com o dízimo e legitimando igrejas que discriminam a comunidade LGBT+, eles estão financiando a engrenagem que fere o coração de seus próprios filhos. Esse apoio rasga a nossa dignidade e nos diz, de forma dolorosa, que o dogma ou a conveniência social da família importam mais do que a nossa sobrevivência.
Mãe, pai: saiam dessa igreja. Quando um pai e uma mãe abandonam esses espaços de exclusão, eles enviam um recado silencioso, mas ensurdecedor: “revejam seus conceitos”. Ao darem as costas ao preconceito institucionalizado, as famílias não estão abandonando a espiritualidade; estão se firmando na busca pela verdade e pela justiça. O que a Bíblia muitas vezes não explica — ou o que o fanatismo humano distorce nas escrituras —, a filosofia nos explica. A filosofia não substitui a fé; ela a convida à reflexão. É por meio desse exercício crítico que somos capazes de reconhecer a dignidade humana acima de qualquer interpretação que transforme o preconceito em virtude.

O perigo que enfrentamos se alimenta justamente do silêncio complacente, e ele se materializa em canetadas nos corredores do poder. Um exemplo emblemático ocorreu em Palmas (TO), com a aprovação da Lei nº 2.583/2020. Embora o texto não mencionasse expressamente as pessoas trans, ele estabelecia regras para o uso de banheiros baseadas na separação entre os sexos sem esclarecer quem definiria, na prática, quem é homem e quem é mulher. Essa lacuna tornava o projeto extremamente perigoso. Ao abrir espaço para interpretações arbitrárias, a norma criava insegurança jurídica e oferecia um terreno fértil para constrangimentos, abordagens vexatórias e discriminação contra pessoas trans. Em vez de proteger direitos, colocava cidadãos sob suspeita e autorizava, na prática, que terceiros questionassem sua identidade e seu direito de ocupar espaços públicos.
O projeto foi apresentado pelo então vereador Filipe Martins, à época filiado ao PSDB (posteriormente filiado ao PL), aprovado pela Câmara Municipal e promulgado pelo então presidente da Câmara, Marilon Barbosa, do DEM (atual União Brasil), após a prefeita Cinthia Ribeiro, também do PSDB, não sancionar nem vetar a proposta dentro do prazo legal. O resultado foi uma lei cuja redação gerou intensa preocupação entre organizações de direitos humanos justamente por seu potencial de legitimar práticas discriminatórias.
A partir da reflexão de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal, a barbárie não depende de monstros, mas de burocratas comuns e, neste texto, ampliamos essa reflexão para partidos e cidadãos que consideram minorias sacrificáveis em troca de conveniências. Quando representantes políticos se articulam para criar leis excludentes — como no episódio descrito acima — ou quando líderes religiosos utilizam o púlpito para destilar preconceito, banalizam a violência. E quando pais apoiam essas legendas ou essas igrejas, aceitam passivamente que a máquina social funcione para esmagar seus próprios filhos.
Essa tentativa de fuga da responsabilidade é o que o filósofo Jean-Paul Sartre classifica como “Má-Fé”. Para Sartre, tentar se esquivar das escolhas sob a desculpa de que “a política não me interessa” ou de que “vou à igreja apenas pela fé, ignorando o preconceito” é uma forma de autoengano pela qual tentamos negar nossa liberdade e responsabilidade. Diante de ameaças concretas aos direitos fundamentais de um filho, a neutralidade deixa de ser uma posição sem consequências. A escolha de não agir, ou de continuar financiando quem nos odeia, é uma escolha ativa pelo lado do opressor.
Mudar a nossa postura enquanto família exige coragem e rede de apoio. É essa a urgência que move o coletivo Mães pela Diversidade. Estruturado nacionalmente, o grupo acolhe famílias, oferece suporte jurídico e psicológico e mostra que a luta pela dignidade não precisa ser solitária. Ao convidar outros pais a se integrarem ao coletivo, construímos o contrapeso necessário à desumanização. Retomando o conceito de ‘zona do não-ser’, desenvolvido por Frantz Fanon para analisar os efeitos da desumanização colonial, é possível compreender como determinados grupos também são empurrados para espaços de invisibilidade. O Mães pela Diversidade arranca os filhos dessa zona de invisibilidade e exige que a sociedade os enxergue como sujeitos de direito, de afeto e de cidadania.

Ter um filho LGBT+ exige a coragem de dizer “não” a qualquer um que tente diminuí-lo. Significa confrontar o pastor que usa a fé como ferramenta de exclusão, ou o médico e profissional de qualquer área que tente patologizar sua identidade. Se um profissional não tem a capacidade de acolher e respeitar a dignidade de um corpo dissidente, ele é incapaz de cuidar de qualquer outro ser humano.
É hora de mudar a postura. A proteção dos nossos filhos se faz na mesa de casa, mas se consolida nas urnas, nas escolhas religiosas e na recusa absoluta de financiar o preconceito. Seja o escudo do seu filho. Amar um filho também é escolher o mundo em que ele viverá. Escolha protegê-lo todos os dias.
Referências
- ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Companhia das Letras.
- FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Ubu Editora.
- SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Vozes.
- Lei Municipal nº 2.583/2020, Município de Palmas (TO).
#PraCegoVer: (Imagem Título e última imagem) Ilustração em estilo de desenho à mão, com traços em grafite e pintura em aquarela sobre papel texturizado. Em um parque, uma heroína de cabelos longos castanho-escuros, usando vestido rosa, jaqueta preta e sapatos de salto, está ajoelhada diante de uma família composta por um casal e três crianças. Ela conversa com expressão serena e acolhedora, estendendo uma das mãos em gesto de diálogo e escuta. Ao seu lado repousa uma grande bazuca decorada com corações, flores, estrelas, arco-íris e símbolos da paz, representando esperança e transformação, sem qualquer aspecto de violência. Uma das crianças veste uma camiseta com as cores do arco-íris LGBT e observa a heroína com um sorriso. Ao fundo, um arco-íris luminoso formado por brilhos e pequenas estrelas atravessa a cena, enquanto árvores, flores e uma cidade ao longe completam o cenário. A composição transmite acolhimento, proteção, respeito à diversidade e o fortalecimento dos vínculos familiares por meio do diálogo e do amor.
#PraCegoVer: (Imagem 2) Ilustração em estilo de desenho à mão com grafite, nanquim e aquarela sobre papel texturizado. Em primeiro plano, a heroína oficial do Movimento LGBT aparece em posição firme e dinâmica, com uma perna à frente e a outra atrás, demonstrando determinação. Ela tem cabelos castanho-escuros, longos e levemente ondulados, soltos ao vento. Veste um vestido rosa de alças, ajustado na parte superior e com saia leve até os joelhos, jaqueta preta de couro estilo motoqueira e scarpins pretos de salto alto. Nas mãos, segura uma bazuca decorada com estrelas, corações, flores, símbolos da paz e pequenos arco-íris pintados à mão. Em vez de projéteis, a arma dispara um intenso feixe de arco-íris formado por luz, brilhos, glitter e pequenas partículas coloridas. O feixe atinge um grande muro cinza, transformando-o em um mural ilustrado com pessoas diversas sorrindo, representando diferentes identidades, idades e etnias em um ambiente de acolhimento. No centro do mural está escrita a frase: “Existir é Resistir. Amor é Direito.” Ao pé do muro há latas de tinta, pincéis e flores desabrochando, sugerindo que a arte floresce onde antes havia apenas concreto. Ao fundo, vê-se uma praça urbana com árvores, bancos, postes antigos e edifícios discretos desenhados em grafite e aquarela. A composição preserva as bordas brancas do papel, com manchas suaves de aquarela e respingos de tinta, reforçando o aspecto artesanal da ilustração. A cena transmite coragem, esperança, transformação e o poder da arte como instrumento de resistência e inclusão.
Jhullia Matos
17/07/2026