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FORÇA E RESISTÊNCIA

Como arquiteta, artista e mulher transexual, que dedica a vida à construção de espaços — sejam eles físicos, cênicos ou sociais — observo o atual panorama de nossos direitos com a lucidez de quem sabe que a estrutura que nos sustenta ainda é frágil. Minha trajetória ensinou que a nossa existência é, por si só, um ato político, mas que não podemos viver apenas da resistência individual; precisamos de uma arquitetura coletiva de direitos que não dependa apenas de interpretações judiciais, mas de uma grande consciência social.

Temos conquistas históricas, como a retificação de nossa identidade e a criminalização da transfobia, mas estas vitórias não nasceram da vontade política majoritária do Legislativo. Elas são frutos de uma pressão externa e de decisões do Judiciário que, embora fundamentais, nos colocam em um estado de vigilância constante, e isso assusta muito!!!. Enquanto as leis que nos protegem forem “emprestadas” de outros marcos legais, nossa segurança jurídica será um terreno instável. Por mais que tenhamos alcançado alguma coisa… é tudo muito incerto.

Uma heroína que chegou para abalar, com a bazuca de raios cósmicos do amor e do arco Íris...
Uma heroína que chegou para abalar, com a bazuca de raios cósmicos do amor e do arco Íris…

Como devemos nos posicionar?

  • Reação apenas aos ataques? Não. Precisamos ocupar os espaços de formulação de pensamento. Como trans e LGBTQIA+, nosso posicionamento deve ser o de protagonistas da norma, e não apenas exceções a ela. Devemos exigir que nossas pautas sejam tratadas como questões de Direitos Humanos universais, e não como “benefícios” setoriais.
  • A desinformação é um crime contra a cidadania. Nosso posicionamento deve ser o de educadores e fiscalizadores. Quem publica ou propaga o erro é cúmplice da exclusão. Precisamos gerar uma conscientização de massa onde a checagem da realidade seja um dever ético de todos, especialmente em períodos de escolhas políticas.
  • Embora partidos de esquerda tenham sido o porto seguro de nossas proposições, precisamos cobrar de todo o espectro político o compromisso com a dignidade humana. Onde houver uma pessoa trans, deve haver a garantia de que sua identidade não é um debate, mas um fato consumado.
  • O conceito de “casa” e “cidade” deve ser ressignificado. O lar deve ser o refúgio contra o preconceito externo, e a cidade deve ser o palco onde exercemos nossa profissão e nossa arte com a mesma naturalidade de qualquer outro cidadão. Minha voz como Jhullia Matos é a voz de quem projeta um futuro onde nossa trajetória na música, nas artes e na arquitetura seja o que nos define, e não apenas o gênero que portamos.

Conclusão

Não podemos aceitar o “silêncio que tolera”. Devemos exigir leis claras, estatutos de responsabilidade e políticas de educação que comecem na base. Não permitiremos que retrocessos sejam camuflados de “opinião”. Direitos não se negociam; exercem-se. Seguimos em frente, construindo nossa própria história, com o rigor de quem projeta o amanhã e a sensibilidade de quem vive a arte no agora.

#praCegoVer: Uma ilustração com traços de desenho e preenchimento a lápis de cor. A imagem mostra uma mulher de pele morena e cabelos castanhos ondulados, vestindo um vestido rosa de alças, um blazer cinza escuro aberto e sapatos de salto alto, em cima de um desfiladeiro. Ela está em posição de combate segurando uma bazuca nos ombros e disparando um arco-íris brilhante e confetes coloridos em direção a uma cidade ao longe. Ela também carrega uma bandoleira de munição e a bazuca possui algumas decorações, como uma estrela amarela, um pássaro azul e um coração verde. Há árvores verdes ao fundo e o céu é claro.

Jhullia Matos

11/05/2026

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