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FORÇA E RESISTÊNCIA

Você já deve ter visto essa cena antes: um político atolado em denúncias contrata uma penca de especialistas, doutores e ex-ministros para tirarem fotos ao seu lado. A promessa é sempre a mesma: “Olha só como a nossa gestão vai ser técnica, profissional e moderna!”

Mas não se engane. No fundo, esse espetáculo tem um único objetivo: usar o currículo de especialistas para dar aparência de competência a projetos marcados por denúncias, personalismo e autoritarismo.

O Partido Liberal (PL) passou a reunir nomes apresentados como “quadros técnicos” para reforçar a imagem de Flávio Bolsonaro. A pergunta, porém, continua sendo a mesma: esses especialistas chegam para governar ou apenas para emprestar credibilidade a um projeto político?

 O “Técnico” Só Serve Até Dizer Não

O histórico desse clã político já é conhecido dos brasileiros. Durante quatro anos, Bolsonaro repetiu que seu governo era guiado por “critérios técnicos”. Na prática, bastava um ministro contrariar interesses políticos, familiares ou ideológicos para ser exposto, desautorizado ou demitido. A técnica ali só tinha valor se baixasse a cabeça para a canetada do chefe e para os seus interesses familiares.

Como advertia Hannah Arendt, o maior perigo não está apenas no burocrata corrupto, mas no profissional altamente qualificado que abre mão do próprio juízo para servir ao poder. Quando um técnico decide apenas obedecer, deixa de exercer sua função pública e passa a integrar conscientemente a engrenagem que sustenta os abusos.

Um Histórico Que Não Se Apaga

Não dá para fingir amnésia. Colocar técnicos ao lado de Flávio Bolsonaro não apaga o rastro que o acompanha:

  • O caso das rachadinhas: investigações apontaram um esquema de apropriação de salários de assessores no gabinete de Flávio Bolsonaro na ALERJ, envolvendo pessoas de sua mais alta confiança e dando origem a um dos maiores desgastes políticos da família.
  • Apropriação do Estado: sucessivos episódios em que a máquina pública e órgãos de Estado foram pressionados ou mobilizados para atender interesses políticos e familiares em vez do interesse coletivo – a tal da blindagem do próprio umbigo e da dos filhos de investigações legítimas.

Isso não é gestão pública. É patrimonialismo: a velha prática de tratar o Estado como propriedade privada de um grupo político ou de uma família.

A Traição Exposta e a Submissão Estrangeira

Enquanto setores produtivos brasileiros alertavam para os prejuízos das tarifas impostas por Donald Trump, Eduardo Bolsonaro preferiu direcionar sua atuação política ao cenário norte-americano, postura que seus críticos apontam como incompatível com a defesa dos interesses econômicos do Brasil. O problema não é apenas a política externa. É o padrão de comportamento: interesses do grupo acima do interesse nacional.

Em Acorda, Brasil: Vigiemos Contra os Parasitas que Leiloam a Nossa Pátria, já havíamos denunciado essa sanha entreguista resgatando as lições de Nicolau Maquiavel. Mas o filósofo florentino deixou um ensinamento ainda mais cirúrgico sobre príncipes que usam “tropas auxiliares” ou forças externas: quem recorre a terceiros para se sustentar no poder torna-se refém perpétuo da vontade alheia. Maquiavel enfatizava em O Príncipe que alianças feitas por servilismo ideológico cobram o preço na ruína do próprio Estado.

Esse padrão não se limita às relações internacionais. No plano interno, a lógica se repete: decisões, ataques e até práticas ilícitas são frequentemente executados por aliados, assessores ou seguidores, preservando a imagem do líder enquanto terceiros assumem os riscos. Como discutimos em em Bolsonaro por mãos alheias: a estratégia do incitador e articulador, trata-se da mesma engenharia política aplicada em contextos diferentes. A lógica do grupo é idêntica: o líder e sua família nunca sujam as mãos.

O Alerta Que Fica

O PL e sua cúpula tentam vender uma maquiagem nova para um projeto velho e perigoso. Eles querem que você olhe para a gravata e para o diploma do assessor, para que esqueça quem é que realmente manda na caneta. Vale observar quem aceita emprestar seu currículo para esse tipo de projeto. Um diploma não absolve escolhas políticas. Ao contrário: aumenta a responsabilidade de quem decide colocá-lo a serviço do poder. Há quem venda a consciência por dinheiro. Há quem a venda por um cargo. E há quem venda décadas de estudo apenas para posar ao lado de quem precisa desesperadamente de respeitabilidade.

O Brasil não precisa de burocratas de estimação a serviço de famílias envolvidas em controvérsias e investigações. Precisa de instituições independentes e de profissionais capazes de dizer “não” quando o poder exige submissão.

Fique atento: a técnica existe para servir ao interesse público, não para lavar a imagem de projetos políticos. Quando um diploma passa a funcionar como escudo para o poder, deixa de representar conhecimento e passa a representar cumplicidade. É assim que nasce o técnico de estimação.

Artigos de Referência

Referências Bibliográficas

  • ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Mário da Silva. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

Obras de especial relevância para o tema

  • ARENDT, Hannah. A obra apresenta o conceito da banalidade do mal, demonstrando como a suspensão do julgamento moral e a obediência acrítica podem transformar indivíduos comuns em agentes de sistemas autoritários.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. Os Capítulos XII e XIII analisam os riscos políticos da dependência de forças auxiliares e de alianças externas, tema que oferece importante referencial teórico para reflexões sobre soberania, autonomia estatal e estratégias de poder.

Jhullia Matos

27/07/2026

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