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FORÇA E RESISTÊNCIA

A barbárie que tirou a vida da cabeleireira Camila Ferraz, aos 44 anos, não foi um crime comum. Foi um projeto de execução cruel que contou com o silêncio de um sistema que, ao não agir com o rigor da lei, torna-se cúmplice da brutalidade. Cada corpo que cai é a prova de um Estado que escolhe o lado do opressor através de sua própria inércia.

Estamos diante de um padrão inaceitável de descarte humano: Camila foi despida, violentada e jogada de cima de uma ponte na Avenida Dr. Theomário Pinto da Costa, sobre as águas de um igarapé no bairro Chapada, zona Centro-Sul de Manaus, em 17 de junho de 2024. Anos antes, Andressa foi assassinada a pauladas na mesma capital. O que esses casos têm em comum além da violência de revirar o estômago? A lentidão asfixiante e ultrajante do Estado em dar respostas definitivas às famílias, arrancando delas o direito ao luto e à dignidade.

A tortura e as marcas profundas de agressão não são meros detalhes técnicos de um laudo pericial frio; são a assinatura de um ódio que se sente confortável, protegido e acolhido. Esse sadismo só opera com tanta liberdade porque sabe que o Judiciário e as forças de segurança, na prática, tratam essas vidas como subexistências, empurrando os inquéritos para o fundo da gaveta e para a invisibilidade proposital.

A legislação brasileira é categórica. O STF já equiparou a transfobia ao racismo e o Código Penal pune o homicídio qualificado por tortura com penas de 12 a 30 anos. A engrenagem jurídica está pronta, mas os braços que deveriam movê-la parecem cruzados por pura conveniência ideológica. Por que, então, as investigações caminham em marcha lenta enquanto as travestis e mulheres trans da periferia sequer conseguem alcançar a expectativa de vida de 35 anos? É uma vergonha humanitária ver um sistema de proteção falhar sistematicamente com quem mais precisa.

Heroína em prece pelas vítimas desovadas no igarapé
Heroína em prece pelas vítimas

Cada dia de inação do Estado funciona como um sinal verde, um salvo-conduto silencioso para o próximo agressor. Cada inquérito parado em uma mesa de delegacia é um soco na cara de uma sociedade que clama por dignidade e uma humilhação pública imposta às memórias de Camila e Andressa. A polícia que ignora a transfobia no boletim de ocorrência e o juiz que aceita desculpas de “briga banal” lavam as mãos no mesmo sangue que escorre nas calçadas.

Não aceitaremos o arquivamento velado, o cansaço processual nem o esquecimento. Não vamos recuar diante da burocracia usada como escudo para o preconceito institucional. Exigimos:

  • O reconhecimento explícito da transfobia como qualificadora central e imediata na condução de crimes com requintes de crueldade, sem espaço para manobras de desqualificação jurídica.
  • Celeridade absoluta e transparência da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) nas investigações de crimes contra a população trans, tratando esses casos com a urgência máxima que a barbárie exige.
  • Punição máxima, exemplar e sem atenuantes para os executores e mandantes.

A impunidade do passado alimenta o sangue do presente, provando que a engrenagem do descaso continua girando em 2026. Enquanto os inquéritos de Andressa e Camila mofam nas gavetas, novos corpos continuam sendo descartados e violentados sob o silêncio covarde do Estado. Em junho deste ano, uma mulher trans de 37 anos foi mantida em cárcere e torturada na Zona Sul de Manaus, no Japiim, enquanto no Monte das Oliveiras outra travesti foi achada morta e seminua em um terreno baldio. A barbárie não respeita fronteiras e se repete na emboscada fatal contra uma jovem de 29 anos em Ponta Porã (MS), escancarando que a omissão judicial é uma licença para matar. Não aceitaremos que o tempo apague esses crimes; exigimos respostas imediatas para as vítimas de ontem e de hoje!

A Justiça que silencia diante de corpos jogados em igarapés e espancados até a morte é a mesma que puxa o gatilho e permite que o ciclo de mortes continue. O silêncio do poder público tem rosto, tem nome, tem crachá e tem endereço. Nós estamos observando cada passo, cada omissão e cada despacho. A impunidade de vocês acabou.

#PraCegoVer: A imagem é uma ilustração de quadrinhos, no estilo clássico de super-heróis da Marvel, mas executada com técnicas tradicionais de aquarela, guache e lápis de cor. A arte possui uma borda aquarelada e manchada, revelando o fundo branco do papel, conferindo um tom sério, emotivo e reverente. A cena retrata um momento de prece e libertação sobre um igarapé urbano. No lado direito, em pé sobre uma ponte de concreto com um gradil de metal envelhecido, está a heroína. Ela é uma mulher de cabelos longos e ondulados, castanhos. Está de pé, com o corpo ligeiramente voltado para o igarapé abaixo dela, mas com as mãos levantadas para o céu, unidas em prece. Seus olhos estão voltados para o céu, em um momento de reflexão e súplica a Deus. Ela veste um vestido de alça rosa claro, que é justo no peito e leve e solto até a altura dos joelhos, movendo-se levemente com o vento. Por cima do vestido, ela usa uma jaqueta de motoqueiro preta de couro, com zíperes e fivelas. Nos pés, ela calça sapatos de salto alto tipo scarpin pretos. Apoiada no gradil da ponte, atrás dela, está a sua bazuca metálica, um equipamento tático que agora repousa enquanto a heroína se concentra na espiritualidade. Abaixo da ponte, o igarapé flui sob a estrutura. Suas águas são escuras, com reflexos das luzes urbanas. Emergindo das águas do igarapé, duas formas etéreas e luminosas, as almas de Camila e Andressa, estão subindo. Elas são figuras femininas fluidas e translúcidas, flutuando entre a superfície do igarapé e a base da ponte. Suas formas sobem em um movimento espiral, olhando uma para a outra e de mãos dadas, simbolizando união e paz. Uma delas tem cabelos curtos e a outra, longos e fluidos. O cenário é a ponte sobre o igarapé no bairro Chapada, em Manaus. No fundo, do outro lado do igarapé, vê-se a paisagem urbana com casas simples, fiação elétrica e prédios baixos, tudo sob um céu dramático. O céu transita de tons quentes de pôr do sol (laranja e roxo) para um azul escuro estrelado. Um arco-íris etéreo e brilhante corta diagonalmente o céu, com partículas cintilantes de luz.

Jhullia Matos

09/07/2026

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