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FORÇA E RESISTÊNCIA

Fui à igreja hoje e agora estou tomando este café… Sozinha… E feliz!!! Não, eu não preciso de um casamento para ser validada. Na missa, no banco da paróquia ou até mesmo rolando o feed das redes sociais, a gente quase acredita na ilusão de que a graça de Deus só combina com porta-retratos de família comercial. Que o domingo só é santo se tiver moldura, simetria e o roteiro padrão da aprovação social. Mas a verdade que o altar me ensina, no silêncio, é outra. Desde a minha juventude, eu já sentia o peso de uma frustração silenciosa ao observar aquelas dinâmicas. Hoje entendo que aquilo era o luto antecipado por uma promessa que a cultura e a religião me venderam desde cedo, mas que nunca me pertenceu de verdade. Deram-me um mapa pronto e me disseram que a única Linha de Chegada para eu ser uma mulher respeitada e abençoada era o altar, o véu e o casamento padrão. Demorou tempo — e algumas feridas — para perceber que eu estava tentando seguir as coordenadas de um rumo que simplesmente não era meu. O meu caminho nunca foi uma linha reta; sempre foi a busca honesta pela minha própria verdade e pela minha vivência como mulher LGBT dentro da minha fé.

Me vieram à cabeça as histórias das “tiazonas” de antigamente. Quantas mulheres incríveis morreram frustradas ou com vergonha de estarem sozinhas, achando que falharam porque “nenhum pretendente as escolheu”? Elas foram vítimas desse mesmo mapa falso. Em contrapartida, sempre existiram aquelas tias solteiras, independentes e autossuficientes, que não casaram por escolha. Essas mulheres já entendiam o sistema antes de todo mundo; sabiam que a liberdade valia muito mais do que um sobrenome no papel. Deixar o mapa antigo para trás não é um fracasso; é um verdadeiro ato de libertação. É como o filósofo Friedrich Nietzsche dizia sobre a maturidade: a gente precisa ter a coragem de quebrar os dogmas e as regras do “rebanho” para virar legislador da nossa própria vida. Tomar esse café sozinha é romper com a ideia de que a mulher só está salva ou completa se estiver sob a tutela de uma estrutura tradicional.

A heroina pega uma tesoura para transformar o vestido, ela esta na frente de uma igreja
heroina buscando ressignificar a vestimenta do casamento

A beleza de um domingo não está no formato da mesa, mas na verdade de quem se senta nela. Hoje, o meu sagrado é este: a comunhão na missa e a solitude preenchida deste café. E isso é profundamente belo, legítimo e louvável. Se amanhã ou depois um companheiro se sentar na cadeira da frente, a vida continuará sendo bela. Mas será um toque de beleza, não A Beleza em si. Porque o essencial na nossa caminhada com o Transcendente não depende de figurantes para acontecer. Minha fé, meu amadurecimento e a minha própria presença já bastam para Deus. E bastam para mim. Como lembrava o filósofo Arthur Schopenhauer, a solitude não é falta de ninguém, é a preservação da nossa própria nobreza interna, longe das cobranças e das falsas aparências da sociedade.

Houve uma distorção onde o “belo” na Igreja virou um filtro de exclusão. Se você não performa a santidade higienizada dos feeds das redes sociais, te jogam para as margens. Só que a minha espiritualidade transborda. Minha arte, minha pluralidade e a minha história não cabem nas gavetas estreitas de um julgamento paroquial. Não me é negado o direito de colocar um vestido de noiva; posso fazê-lo trabalhando, performando ou simplesmente dando um significado novo a ele, como num ensaio fotográfico onde pego o vestido e, em vez de destruí-lo, transformo-o em uma roupa de gala, uma peça de performance para sair. Eu posso vestir o véu pela beleza da arte no palco ou em um editorial de moda, mas a minha vida real é vasta, complexa e livre demais para ser aprisionada por uma herança de cobranças. O Sagrado habita na imensidão de quem eu sou, e não no tamanho do que o preconceito alheio consegue tolerar.

Olho para trás e acolho aquela jovem que achava que precisava da validação de um casamento para ser completa. Digo a ela: está tudo bem o plano ter mudado. Eu não “falhei” por estar aqui com a minha xícara; eu venci ao escolher a autenticidade. O pensador Jean-Paul Sartre dizia que nós não nascemos com um figurino pronto; nós nos construímos a cada escolha, e tentar se esconder atrás de papéis sociais só para agradar os outros é um ato de má-fé. Eu recuso a má-fé. Recuso-me a passar a vida tentando me espremer e me machucar para caber em um papel que nunca foi escrito para o meu corpo ou para a minha alma. Assumo o palco da minha vida com orgulho. Sou a protagonista da minha própria história, e cada gole desse café pós-missa celebra a mulher inteira, corajosa e abençoada que eu me tornei.

Referências Bibliográficas

Aqui estão alguns autores que dão sustentação a este manifesto e validam a beleza de romper com os figurinos sociais e celebrar a potência da vida atual:

  • BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. A filósofa desconstrói a ideia de que o destino social da mulher deve se realizar obrigatoriamente no casamento. Ela fundamenta a recusa em aceitar um figurino pré-escrito, celebrando a conquista da autonomia.
  • SPINOZA, Baruch. Ética. Defende que a verdadeira alegria nasce quando nos libertamos das cobranças externas e expandimos a nossa “potência de agir e de existir”. O café… sozinha e feliz… é a afirmação alegre e potente do próprio ser.
  • TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. Este teólogo e filósofo discute a necessidade de termos a coragem de afirmar nossa própria existência e fé, mesmo diante do não-pertencimento ou do julgamento das instituições religiosas, mostrando que Deus acolhe a nossa verdade interior muito antes de qualquer formalidade paroquial.

#PraCegoVer: Ilustração em estilo desenho a lápis com pintura em aquarela e tinta guache. A cena mostra a fachada de uma grande catedral de arquitetura gótica, com arcos altos, vitrais e detalhes em pedra clara iluminados por uma luz suave. No centro da imagem, uma mulher jovem, nossa heroína de cabelos castanhos longos e ondulados está de pé nos degraus da igreja. Ela veste uma jaqueta preta de couro, um vestido rosa claro e sapatos de salto alto. Em uma das mãos, segura um vestido de noiva branco com renda; na outra, ergue uma grande tesoura de alfaiate dourada. Aos seus pés, apoiado nos degraus, está uma grande bazuca decorado com as cores do arco-íris, acompanhado por uma faixa de cápsulas coloridas. Confetes espalhados pelo chão sugerem um momento simbólico ou celebratório. À direita, três senhoras idosas observam a cena. Elas usam vestidos discretos e chapéus, aproximam-se umas das outras e cochicham com expressões de surpresa e curiosidade. A composição cria um contraste entre tradição religiosa, representada pela catedral e pelo vestido de noiva, e autonomia pessoal, simbolizada pela tesoura e pela postura decidida da personagem. A imagem sugere temas de escolha, liberdade, identidade e transformação social.

Jhullia Matos

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