Muitas pessoas trans, quando olham para a própria infância, lembram da dor de não terem sido compreendidas ou acolhidas. Para algumas famílias, essa realidade desperta medo, dúvidas e o desejo sincero de fazer diferente. A boa notícia é que o cuidado não começa quando todas as respostas aparecem. Ele começa quando existe disposição para ouvir, aprender e caminhar junto.
Para quem é adulto, esse cuidado pode significar acolher a criança que um dia precisou de proteção. Para quem hoje é pai, mãe ou responsável, significa oferecer à criança aquilo que talvez tantas outras não tiveram: um lugar seguro para crescer sendo ouvida (UNICEF, 2014). A proteção da infância também envolve garantir que crianças e adolescentes possam crescer em ambientes livres de violência, discriminação e rejeição, princípios que fazem parte da defesa internacional dos direitos da criança.
A base de todo cuidado não está em tirar conclusões rapidamente, mas em construir uma escuta atenta, respeitosa e amorosa. Essa perspectiva de escuta também aparece no trabalho de Diane Ehrensaft, que propõe que adultos aprendam a observar e compreender as diferentes formas pelas quais as crianças expressam suas experiências de gênero, sem transformar toda manifestação infantil em uma conclusão antecipada (EHRENSAFT, 2016).
Nenhuma criança precisa ser adivinhada; ela precisa ser ouvida. Quando uma criança é trans, o papel da família não é decidir quem ela é, mas oferecer um lugar seguro para crescer, se expressar e ser ouvida, sabendo que continuará sendo amada.
É natural que pais e mães sintam insegurança. Muitos têm medo de errar, de incentivar algo cedo demais ou, ao contrário, de não perceber um sofrimento importante. Essas dúvidas fazem parte do caminho. Buscar informação de qualidade e manter um diálogo aberto costuma ser muito mais importante do que encontrar respostas imediatas (SAADEH et al., 2018).
Expressão de Gênero vs. Identidade de Gênero: A Linha Tênue
É importante compreender que a infância é um período de descobertas (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2020). Muitas formas de brincar, vestir-se e imaginar fazem parte do desenvolvimento infantil e, por si só, não definem quem uma criança é. Entender essa diferença ajuda a tranquilizar as famílias e evita tanto conclusões precipitadas quanto a negligência diante de um sofrimento real:
- Brincadeira e Expressão de Gênero: Meninos brincarem de boneca, meninas brincarem de carrinho ou qualquer criança explorar diferentes brincadeiras, fantasias e formas de expressão faz parte da exploração infantil do mundo e, isoladamente, não determina a identidade de gênero ou a orientação sexual.
- Identidade de Gênero e Disforia: A atenção deve aumentar quando a criança expressa de forma persistente e consistente uma identificação de gênero diferente daquele registrado ao nascer, especialmente quando há sofrimento significativo.

Literatura Médica, Psiquiátrica e Psicológica
As principais organizações médicas e psicológicas nacionais e internacionais deixaram de tratar a identidade trans como uma doença em si (AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 2015; CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2018). Hoje, o foco do cuidado está na promoção da saúde mental, na redução do sofrimento e no acompanhamento individualizado da criança e de sua família.
Acompanhamento Psicológico e Psiquiátrico
A Associação Americana de Psicologia (APA) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP) orientam uma atuação profissional que não tenha como objetivo corrigir ou patologizar a identidade de gênero, mas oferecer acolhimento e cuidado qualificado:
- Oferecer um espaço acolhedor para a criança expressar seus sentimentos.
- Ajudar os pais a compreenderem seus próprios medos, expectativas e sentimentos diante da situação.
- Diferenciar fases de exploração do desenvolvimento infantil de uma identidade trans persistente.
O Protocolo Endócrino e Médico
As diretrizes da Endocrine Society, da World Professional Association for Transgender Health (WPATH) e as normas do Conselho Federal de Medicina apresentam recomendações para o acompanhamento de pessoas trans e com incongruência de gênero, ressaltando a importância de avaliação individualizada e acompanhamento por profissionais capacitados (COLEMAN et al., 2022; HEMBREE et al., 2017):
- Infância (Pré-púbere): Não existem intervenções médicas ou hormonais. O processo é puramente social (nome social, corte de cabelo, vestuário, uso do banheiro adequado), sempre no ritmo da criança e com apoio psicológico.
- Início da Puberdade (Tanner II): Pode ser avaliado o uso de bloqueadores puberais. Esse procedimento é reversível e serve como uma “pausa no relógio”, impedindo o desenvolvimento de caracteres sexuais secundários não desejados e podendo contribuir, em casos selecionados, para a redução do sofrimento relacionado ao desenvolvimento puberal.
- Adolescência: Acompanhamento multidisciplinar e consentimento dos responsáveis, pode-se iniciar a hormonoterapia cruzada.
“Perguntas frequentes dos pais”
- “E se meu filho mudar de ideia?”
Durante a infância, é natural que as crianças explorem diferentes formas de brincar, vestir-se e se expressar. Algumas mantêm uma identidade de gênero consistente ao longo do desenvolvimento; outras podem compreender seus sentimentos de maneiras diferentes com o passar do tempo. Por isso, o objetivo do acompanhamento não é apressar conclusões, mas oferecer um ambiente seguro para que a criança possa se desenvolver com tranquilidade.
- “Devo incentivar ou impedir?”
O papel da família não é conduzir a criança para uma identidade específica, mas acolhê-la, ouvi-la e respeitar seu tempo. Incentivar ou impedir podem representar formas de pressão. O que mais protege a saúde mental infantil é a presença de adultos que escutam, dialogam e procuram compreender o que a criança está vivendo.
- “Quando procurar um profissional?”
Sempre que a criança demonstrar sofrimento persistente relacionado ao gênero, ansiedade intensa, isolamento social, tristeza prolongada, rejeição ao próprio corpo ou quando a própria família sentir necessidade de orientação.
Buscar ajuda não significa confirmar um diagnóstico. Significa oferecer um espaço qualificado para compreender a situação e apoiar a criança e sua família (SAADEH et al., 2018).
- “Como conversar com a escola?”
A escola deve ser vista como uma parceira no desenvolvimento da criança. A American Academy of Pediatrics destaca a importância de ambientes de desenvolvimento seguros e de apoio para crianças e adolescentes trans e de gênero diverso, incluindo a participação da família e da comunidade na redução do estigma e da discriminação (RAFFERTY et al., 2018).
Conversar com professores, coordenação e equipe pedagógica ajuda a construir um ambiente mais seguro, prevenindo situações de bullying e garantindo que a criança seja tratada com respeito. Quando família e escola trabalham juntas, aumenta-se a sensação de pertencimento e proteção da criança.
- “E se meu filho não quiser falar sobre isso?”
Situações de bullying, rejeição, preconceito e violência podem afetar o bem-estar psicológico de crianças e adolescentes e dificultar sua relação com os espaços de convivência e apoio (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2020).
Às vezes, o silêncio de uma criança não significa que ela não queira ser compreendida. Pode significar que ainda não se sente segura para falar. Por isso, vale se perguntar: quanto espaço estamos oferecendo para que nossos filhos possam se abrir sem medo de serem julgados, corrigidos ou rejeitados?
Situações de bullying, rejeição ou constrangimento podem fazer com que uma criança se sinta diminuída e passe a esconder aquilo que sente. Da mesma forma, frases como “Deus não aceita isso”, “você é a vergonha da família” ou outras manifestações de rejeição podem fazer com que a criança associe sua própria expressão à culpa, à vergonha ou ao medo.
Essa também é uma questão que atravessa minha própria história. Durante minha infância, muitas vezes minha mãe quis me levar a um psicólogo, mas eu tinha medo. Temia que aquele profissional também apontasse o dedo para mim e dissesse que eu estava errada, como tantas vezes eu havia ouvido dentro de casa, na igreja e nas situações de bullying que vivi na escola e na rua. Para uma criança, procurar ajuda pode parecer assustador quando ela acredita que será julgada justamente pelas pessoas que deveriam ajudá-la.
Por isso, talvez a primeira pergunta não precise ser “por que meu filho não fala?”, mas “o que ele pode estar sentindo que torna tão difícil falar comigo?”. Antes de exigir respostas, podemos oferecer segurança. Às vezes, abrir espaço significa simplesmente dizer: “Você pode conversar comigo. Eu vou ouvir você. Não precisa ter medo de me contar o que está sentindo.”
A criança não precisa encontrar imediatamente as palavras certas. Ela precisa saber que, quando estiver pronta para falar, encontrará alguém disposto a escutá-la.
Estruturando o Ambiente: Escola, Família e Convivência
Quando uma criança se reconhece como trans, toda a rede de apoio ao seu redor pode ser fortalecida para que ela cresça com segurança, respeito e pertencimento.
- A Família como Porto Seguro: A ansiedade dos pais é natural, mas não deve ser depositada sobre a criança. O amor incondicional e o diálogo aberto são os maiores protetores contra a depressão e a ansiedade infantil.
- O Ambiente Escolar: A escola deve ser uma parceira ativa. É fundamental garantir o uso do nome social, a adequação de espaços (como banheiros e vestiários) e a realização de trabalhos de conscientização contra o bullying.
- Espaços de Convivência e Lazer: A criança precisa continuar brincando, fazendo esportes e convivendo com outras crianças. Proteger não significa isolar; significa preparar a criança com autoestima para que ela saiba que seu corpo e sua existência são legítimos.
Mensagem Final para os Pais
Ser trans é uma das muitas formas possíveis de existir na diversidade humana. Nenhuma criança precisa crescer com medo de ser quem é, e nenhuma família precisa enfrentar esse caminho sozinha. Buscar informação de qualidade, manter um diálogo aberto e respeitar o tempo da criança costuma ser muito mais importante do que encontrar respostas imediatas. Mas ainda vale uma ressalva: não ignore, negligencie ou faça pouco caso da existência de uma criança trans.
Referências Bibliográficas
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Guidelines for psychological practice with transgender and gender nonconforming people. Washington, DC: American Psychological Association, 2015.
COLEMAN, E. et al. Standards of care for the health of transgender and gender diverse people, version 8. International Journal of Transgender Health, v. 23, supl. 1, p. S1-S259, 2022. DOI: 10.1080/26895269.2022.2100644.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.265, de 20 de setembro de 2019. Dispõe sobre o cuidado específico à pessoa com incongruência de gênero ou transgênero e revoga a Resolução CFM nº 1.955/2010. Brasília, DF: Conselho Federal de Medicina, 2019.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 1, de 29 de janeiro de 2018. Estabelece normas de atuação para as psicólogas e os psicólogos em relação às pessoas transexuais e travestis. Brasília, DF: Conselho Federal de Psicologia, 2018.
EHRENSAFT, Diane. The gender creative child: pathways for nurturing and supporting children who live outside gender boxes. New York: The Experiment, 2016.
HEMBREE, W. C. et al. Endocrine treatment of gender-dysphoric/gender-incongruent persons: an Endocrine Society clinical practice guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 102, n. 11, p. 3869-3903, 2017. DOI: 10.1210/jc.2017-01658.
RAFFERTY, Jason et al. Ensuring comprehensive care and support for transgender and gender-diverse children and adolescents. Pediatrics, v. 142, n. 4, e20182162, 2018. DOI: 10.1542/peds.2018-2162.
SAADEH, Alexandre et al. AMTIGOS – Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do IPq-HCFM/USP: proposta de trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Boletim do Instituto de Saúde, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 86-97, 2018. DOI: 10.52753/bis.2018.v19.34595.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Adolescência. Incongruência/disforia de gênero: atualizado e revisado. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2020. (Guia Prático de Atualização, n. 16).
TURBAN, Jack L. et al. Social transition for transgender and gender diverse youth, K-12 harassment, and adult mental health outcomes. Journal of Adolescent Health, v. 69, n. 6, p. 991-998, 2021. DOI: 10.1016/j.jadohealth.2021.06.001.
UNICEF. Eliminating discrimination against children and parents based on sexual orientation and/or gender identity. New York: UNICEF, 2014.
#PraCegoVer: Ilustração em aquarela e grafite mostra uma mulher de vestido rosa, jaqueta preta e salto alto atravessando uma faixa de pedestres, carregando uma criança com camiseta arco-íris. Ela leva uma bazuca decorada com arco-íris, estrelas, corações e símbolos de paz, enquanto ao fundo há uma rua movimentada, semáforos, prédios, pedestres e mensagens de respeito e amor.
Jhullia Matos
26/08/2026