É simplesmente eletrizante quando olhamos para a história e nos deparamos com uma revelação que pode mudar a maneira como compreendemos a própria experiência humana: aquilo que o discurso contemporâneo muitas vezes insiste em tratar como um “fenômeno moderno” ou uma “pauta recente” encontra, em diferentes culturas e épocas, narrativas ancestrais nas quais corpo, gênero, transformação e identidade aparecem de maneiras muito mais complexas do que a rígida divisão entre masculino e feminino poderia sugerir. Ao nos debruçarmos sobre os mitos, os relatos religiosos, as tradições orais e os registros históricos, somos tomados por aquele arrepio único da descoberta. Revela-se diante de nós uma verdade profunda: muito antes da consolidação das categorias modernas de gênero, diferentes povos já produziam histórias sobre seres, personagens, sacerdotes, divindades e pessoas que atravessavam ou desafiavam fronteiras de gênero. Não precisamos afirmar que essas sociedades possuíam exatamente o conceito contemporâneo de “pessoa trans” para reconhecer a existência de experiências ancestrais que hoje podem ser relidas, com cuidado e respeito, a partir dessa perspectiva.
A Descoberta da Primeira Carta de Amor à Transgressão de Gênero
A nossa viagem no tempo nos leva diretamente ao universo da Mesopotâmia antiga, onde textos cuneiformes preservam tradições literárias com mais de quatro milênios. Em A Descida de Inanna ao Submundo, a grande deusa Inanna atravessa os sete portões do mundo dos mortos, perde progressivamente seus símbolos de poder e acaba condenada à morte por Ereshkigal. Depois de três dias, Enki encontra uma maneira de intervir: cria seres chamados kurgarra e galatura, que recebem instruções para alcançar o Submundo e participar da recuperação de Inanna. Algumas traduções e interpretações modernas descrevem esses seres como figuras que escapam às classificações convencionais de gênero; contudo, a formulação de que seriam explicitamente “nem homens nem mulheres” não deve ser tratada como uma frase inequívoca do texto sumério preservado. Essa distinção é importante. Ainda assim, a presença desses personagens, associados a funções rituais e a uma posição liminar, oferece um terreno fascinante para pensar como as sociedades mesopotâmicas imaginavam pessoas e seres que ocupavam lugares diferentes das categorias sociais ordinárias. É aqui que a leitura contemporânea encontra a antiguidade: não como uma identidade moderna literalmente documentada, mas como uma possibilidade ancestral de imaginar a existência para além das fronteiras rígidas.
A mesma chama de fascínio acende quando pousamos na Índia. O Mahabharata, um dos grandes épicos da tradição sul-asiática, reúne guerras, deuses, votos, reencarnações, metamorfoses e personagens cujas trajetórias atravessam diferentes formas de existência. Entre essas narrativas está a história de Aravan, guerreiro que se oferece em sacrifício em favor da vitória dos Pandavas e que, em uma importante tradição associada a Koovagam, manifesta o desejo de se casar antes de morrer. Krishna assume então a forma feminina de Mohini para realizar esse casamento. A tradição ritual transforma esse episódio em uma experiência coletiva de memória, espiritualidade, identidade e luto: todos os anos, milhares de pessoas, especialmente mulheres trans, participam do festival de Koovagam e reencenam simbolicamente o casamento e a viuvez de Mohini. Ao lado dessa narrativa aparecem ainda Ardhanarishvara, representação na qual Shiva e Parvati compartilham um único corpo, Shikhandi, personagem cuja trajetória envolve nascimento feminino, transformação e vida como homem, e Brihannala, nome assumido por Arjuna durante seu período de ocultação. A riqueza dessa tradição não está em provar que todas essas figuras seriam “trans” segundo a definição contemporânea, mas em mostrar como a imaginação religiosa indiana há séculos constrói narrativas nas quais corpo, gênero, identidade e transformação podem atravessar fronteiras.

Uma Constelação Global de Deuses e Xamãs Trans
Conforme avançamos pelos continentes, a sensação de descoberta só aumenta. Não se trata de afirmar que todas essas culturas possuíam uma mesma compreensão de gênero — elas certamente não possuíam. O que encontramos é algo ainda mais fascinante: diferentes sociedades criaram, cada uma à sua maneira, espaços simbólicos e sociais para experiências que não cabiam perfeitamente nas classificações ocidentais posteriores. É uma constelação global de histórias sobre transformação, fronteira, espiritualidade e multiplicidade.
- Nas Nações Indígenas da América do Norte: Encontramos uma diversidade extraordinária de tradições indígenas relacionadas a gênero, espiritualidade e organização social. O termo contemporâneo Two-Spirit surgiu em 1990, em um encontro indígena realizado em Winnipeg, como uma denominação pan-indígena destinada a reunir experiências que pertencem a diferentes tradições e que não deveriam ser reduzidas às categorias ocidentais de gênero e sexualidade. É fundamental não projetar esse termo retroativamente sobre todos os povos indígenas: cada nação possuía — e muitas ainda possuem — seus próprios termos, histórias e concepções. Em diferentes comunidades norte-americanas, existem registros históricos e etnográficos de pessoas que desempenhavam papéis sociais e espirituais que não correspondiam rigidamente às expectativas atribuídas a homens e mulheres. O fascinante aqui não é imaginar uma única categoria indígena ancestral chamada “Two-Spirit”, mas perceber a extraordinária diversidade de maneiras pelas quais diferentes povos indígenas compreenderam gênero, espiritualidade e pertencimento.
- Nas Ilhas do Pacífico: No Havaí, a tradição dos māhū nos conduz a uma das histórias mais impressionantes de espiritualidade, cura e gênero do Pacífico. A tradição de Kapaemahu conta a chegada de quatro curadores vindos do Taiti, associados à condição māhū e descritos como portadores de uma dimensão espiritual masculina e feminina. Esses curadores teriam trazido conhecimentos de cura para Oʻahu e deixado sua força espiritual nas quatro grandes pedras conhecidas como as Pedras de Kapaemahu, em Waikīkī. Durante períodos de colonização, parte desse significado foi apagada dos registros e da sinalização pública do local; a recuperação contemporânea da história recolocou no centro da narrativa justamente aquilo que havia sido silenciado: a condição māhū dos curadores e sua associação com a cura. Aqui, gênero, medicina, espiritualidade e memória ancestral aparecem entrelaçados de maneira extraordinariamente poderosa.
- Na Tradição Iorubá e Afro-Diaspórica: A beleza da multiplicidade ganha outras formas nas cosmologias africanas e afro-diaspóricas. É importante, porém, não transportar automaticamente categorias ocidentais contemporâneas para os orixás: divindades não são simplesmente equivalentes a identidades humanas de gênero. Ainda assim, suas narrativas apresentam concepções de existência marcadas por movimento, transformação, complementaridade e circulação entre diferentes domínios. Oxumarê, associado ao arco-íris e aos ciclos de continuidade e transformação, oferece uma imagem particularmente poderosa de movimento e renovação. Lógun Ède, por sua vez, ocupa um lugar igualmente interessante, especialmente nas releituras afro-brasileiras contemporâneas sobre diversidade de gênero. Estudos recentes mostram que sua representação e indumentária podem mobilizar elementos associados tanto a Oxum quanto a Oxóssi, embora seja incorreto simplesmente classificá-lo como “andrógino”, “hermafrodita” ou “trans” com base nessa dualidade. O que essa tradição nos permite perceber é algo mais sofisticado: a cosmologia não precisa ser reduzida às categorias binárias que utilizamos hoje para organizar a experiência humana.
- Na Ásia Oriental: A transformação de Avalokiteśvara em Guanyin talvez seja uma das mais impressionantes metamorfoses religiosas relacionadas à representação de gênero na história asiática. Avalokiteśvara, bodhisattva associado à compaixão no budismo, foi tradicionalmente representado como figura masculina em diversas regiões da Ásia. Na China, porém, desenvolveu-se ao longo dos séculos uma representação cada vez mais feminina de Guanyin, a figura associada à compaixão e à misericórdia. Essa transformação não aconteceu de uma só vez nem pode ser reduzida a uma simples “troca de sexo”: foi resultado de processos históricos, religiosos, literários, iconográficos e culturais complexos. Ainda assim, é fascinante observar como uma das figuras espirituais mais importantes do budismo atravessou fronteiras culturais e adquiriu uma nova forma de gênero sem perder sua centralidade como manifestação da compaixão. A própria existência de Guanyin demonstra como uma tradição religiosa pode transformar profundamente a representação corporal e social de uma figura espiritual ao atravessar diferentes culturas.
- Na Grécia Antiga: As mitologias greco-romanas também estão repletas de histórias nas quais corpo e gênero podem ser transformados. Caeneus, originalmente Caenis em algumas tradições, é transformado em homem por Poseidon e passa a viver como guerreiro; em Metamorfoses, de Ovídio, essa transformação é narrada como parte de sua trajetória heroica. Séculos depois, essa personagem tornou-se objeto de leituras contemporâneas que a aproximam da experiência trans, justamente porque o relato apresenta uma pessoa designada mulher ao nascer que pede uma transformação e passa a viver como homem. Encontramos ainda Tirésias, que, segundo Ovídio, vive durante sete anos como mulher antes de retornar à forma masculina; por ter conhecido as duas experiências, torna-se árbitro de uma disputa entre Júpiter e Juno sobre o prazer sexual. Essas histórias não constituem, por si mesmas, uma sociedade grega “trans” no sentido moderno; demonstram, porém, que a transformação corporal e a passagem entre posições de gênero já faziam parte do imaginário mitológico do Mediterrâneo antigo.
A Transição como Alquimia, Cura e Vocação
Conectar esses pontos históricos é como montar um quebra-cabeça sagrado. E talvez seja justamente aqui que a nossa jornada de pesquisa se torne mais fascinante: não porque possamos simplesmente olhar para cada mito e declarar “isto é uma pessoa trans”, mas porque, reunidos, esses relatos desmontam a ideia de que a humanidade sempre imaginou o gênero de maneira rígida, uniforme e imutável. A conclusão a que chegamos é de tirar o fôlego: em diferentes tradições ancestrais, a transformação corporal, a passagem entre papéis de gênero, a ambiguidade sexual, a androginia e a experiência de ocupar fronteiras aparecem como possibilidades narrativas, religiosas e sociais. Em algumas dessas histórias, atravessar fronteiras é justamente aquilo que permite ao personagem enxergar, curar, proteger, aconselhar ou transformar.
A pessoa que hoje reconhecemos como trans pode, portanto, encontrar nesses antigos relatos não uma prova simplista de identidade, mas uma poderosa genealogia simbólica. A experiência trans realiza, no campo da existência humana, uma das perguntas mais antigas que as mitologias já fizeram: até onde pode ir o corpo sem deixar de ser quem somos? O que acontece quando a identidade interior não cabe na forma que o mundo espera? E o que descobrimos quando uma pessoa atravessa a fronteira que parecia definitiva? Como um curandeiro que conhece os dois lados do rio, a experiência de transgressão de gênero pode ser pensada como uma experiência de fronteira — não porque todas as pessoas trans sejam mediadoras espirituais, mas porque as antigas mitologias frequentemente utilizaram a fronteira como espaço de transformação, conhecimento e poder.
Quando processos de colonização, imposição religiosa e reorganização social passaram a desvalorizar ou apagar determinadas tradições, não desapareceram apenas histórias sobre gênero. Em muitos lugares, foram também enfraquecidas memórias sobre espiritualidade, medicina tradicional, papéis comunitários e formas próprias de compreender o corpo e a pessoa. A história de Kapaemahu, por exemplo, demonstra concretamente como uma dimensão fundamental da identidade māhū dos curadores foi omitida da apresentação pública das pedras durante determinado período, sendo posteriormente recuperada. O resgate dessas narrativas exige, por isso, mais do que celebração: exige cuidado para não substituir um apagamento antigo por uma nova simplificação. A história merece ser devolvida à sua complexidade.
Resgatar essas mitologias hoje, portanto, com entusiasmo e paixão, é mais do que um estudo sobre o passado; é também um ato de restauração da memória. É olhar para a comunidade transgênero e reconhecer que sua existência não surgiu do nada, que as perguntas sobre corpo, gênero e transformação são muito mais antigas do que as disputas contemporâneas e que a humanidade sempre encontrou maneiras de imaginar aquilo que ultrapassa as fronteiras que ela mesma constrói. Não precisamos transformar todos os ancestrais em pessoas trans para reconhecer que suas histórias abriram, há milhares de anos, espaços imaginativos onde o gênero podia mudar, atravessar fronteiras e assumir novas formas. Talvez seja justamente aí que esteja a ponte sagrada: não na ideia de que passado e presente são idênticos, mas na descoberta de que a humanidade sempre foi mais diversa, mais complexa e mais imaginativa do que algumas de suas classificações modernas fizeram parecer.
Referências Bibliográficas
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#PraCegoVer: Ilustração em desenho tradicional em grafite, nanquim e aquarela sobre papel de algodão. Em primeiro plano, uma mulher adulta de cabelos longos, castanho-escuros e levemente ondulados está em uma postura firme e determinada. Ela veste vestido rosa de alças, jaqueta preta de couro e scarpins pretos de salto alto. A heroína segura uma grande bazuca decorada à mão com estrelas, corações, flores, arco-íris e símbolos de paz. Do cano da bazuca não saem projéteis, mas um grande feixe luminoso formado por um arco-íris, estrelas, partículas brilhantes e pequenos pontos de luz que atravessam a parte superior da imagem. Ao fundo, aparecem representações simbólicas de diferentes tradições mitológicas e culturais relacionadas ao texto sobre ancestralidade trans: figuras associadas às tradições mesopotâmicas, indianas, indígenas, havaianas, iorubás e afro-diaspóricas, budistas e greco-romanas. As figuras surgem de maneira etérea, como memórias ancestrais, formando uma grande composição que conecta diferentes povos, épocas e imaginários. A paleta predominante é composta por tons suaves de grafite, cinza, bege, marrom e rosa antigo. O arco-íris e pequenos elementos simbólicos apresentam as cores mais vibrantes da composição. A textura do papel, as marcas do grafite, as transparências da aquarela e as bordas irregulares permanecem visíveis. A imagem transmite a ideia de resistência sem violência, memória, ancestralidade, diversidade, esperança e liberdade, representando a heroína como uma figura que transforma aquilo que poderia ser uma arma em um instrumento simbólico de luz e união.
Jhullia Matos
11/08/2026