Quando eu era criança e abria a minha caixinha de giz de cera para desenhar, me deparava com uma cor de vermelho que eu nunca usava, ele sempre restava nas caixinhas de desenho e eu sempre usava o vermelho-sangue — aquela tonalidade viva, pulsante, cheia de força. Mas, para a minha frustração, quando o vermelho acabava sobrava aquele, que vinha na caixinha, ele era um tom mais fechado, amarronzado, meio cor de tomate seco. Aquilo me irritava profundamente. Eu queria a vivacidade apenas, não o “quase”. Como eu não sabia o que fazer com aquela cor, ela se tornou invisível, esquecida no fundo da caixa.
O tempo passou, eu cresci e as aulas de pintura me trouxeram técnica. Aprendi a misturar pigmentos, a alcançar nuances e, aos poucos, deixei de esperar pelo vermelho idealizado me permitindo outras nuances. Aprendi a gostar de todas as cores. Um belo dia, esses dias atrás, enquanto mexia nas minhas caixinhas de unhas postiças, algo mágico aconteceu. Meus olhos bateram nelas, aquele tom de vermelho e, na mesma hora, fui transportada no tempo. Era ele: o vermelho ignorado da infância, o puxado para o marrom, agora entre os meus dedos. Mas, dessa vez, achei a cor de uma elegância absoluta. Como eu pude rejeitá-la por tanto tempo?

Em uma de minhas pesquisas, me deparei com o filósofo alemão Martin Heidegger. Ele discorria sobre as coisas ocultas reveladas, quando o foco da lente muda e as percepções se transformam. Heidegger explicava que nós passamos a vida cercados por coisas que estão “ocultas” (escondidas) aos nossos olhos. Não porque estão trancadas em um baú, mas porque a nossa mente está com o foco tão fechado em utilidades ou expectativas que não conseguimos ver a essência do que está na nossa frente. O filósofo usava o exemplo de um martelo ou de um par de sapatos velhos de camponês:
- O Martelo: Enquanto o carpinteiro está focado em pregar uma tábua, o martelo em sua mão é quase invisível. Ele só pensa na utilidade do objeto. O martelo só “aparece” de verdade se quebrar, ou se o carpinteiro parar, olhar para ele com calma e notar o desenho da madeira do cabo, o peso do metal, a história daquela ferramenta.
- Os Sapatos de Camponês: Heidegger escreveu um ensaio famoso sobre uma pintura de Van Gogh que retratava sapatos velhos e sujos de terra. Para qualquer um, eram apenas sapatos gastos. Mas, através da arte, o olhar se transforma: nos sapatos pintados, passamos a enxergar a dureza do trabalho no campo, a solidão dos caminhos percorridos, a dignidade daquela vida. O sapato velho deixa de ser lixo e se torna poesia.

O que aconteceu comigo foi o que Heidegger chamava de Aletheia (uma palavra grega que significa “desocultamento” ou “revelação”). O filósofo dizia que a arte e o amadurecimento têm o poder de tirar as coisas da escuridão do cotidiano. O meu giz de cera cor de tomate seco passou décadas “oculto”, tratado por mim como um erro da fábrica. A cor não mudou em nada durante todos esses anos; o que mudou foi a lente do meu olhar. Foi preciso que eu vivesse, aprendesse sobre as nuances da pintura e acumulasse a bagagem da vida para que a minha lente estivesse pronta. Quando abri a caixinha de unhas postiças, houve o desocultamento. A beleza daquela cor, finalmente se revelou para mim. Como é bom viver e descobrir que não precisamos de coisas novas para sermos felizes; precisamos apenas nos reinventar para conseguir amar o que já estava aqui conosco. Aquele vermelho não era o que eu procurava na infância; era justamente o que já me acompanhava, esperando pacientemente o tempo certo do meu próprio amadurecimento. O filósofo me deixou o seguinte ponto: Nós não descobrimos coisas novas; nós apenas nos tornamos pessoas novas, capazes de enxergar o que sempre esteve ali.
FICHAMENTO:
1. Dados Bibliográficos
- Autor: HEIDEGGER, Martin.
- Título do Ensaio: A Origem da Obra de Arte (Der Ursprung des Kunstwerkes).
- Obra de Origem: Holzwege (Caminhos de Floresta), 1950.
- Referência para estudo: HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Idalina Azevedo da Silva e Manuel Antônio de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010.
2. Tese Central
A essência da arte não está no prazer visual, mas na sua capacidade de interromper o automatismo do cotidiano para revelar a essência oculta das coisas. A arte é o meio pelo qual a verdade do Ser se manifesta como um acontecimento histórico.
3. Pontos-Chave
3.1. Utensílio vs. Obra de Arte
O ser humano costuma se relacionar com os objetos através da utilidade prática (o piloto automático). Nesse estado, o objeto cumpre sua função, mas sua essência permanece “invisível” ou oculta. A obra de arte quebra essa lógica utilitária, forçando o indivíduo a parar e contemplar o objeto pelo que ele é em si.
3.2. O Exemplo dos Sapatos de Van Gogh
Ao analisar a pintura de um par de sapatos velhos feita por Van Gogh, Heidegger demonstra que, livre da obrigação do uso diário, o calçado revela sua verdade profunda. A tela traz à tona o mundo do camponês: o peso do trabalho, o rigor do inverno e a dignidade da sobrevivência. A arte faz o objeto mudo falar.
3.3. A Verdade como Aleteia (Desocultamento)
A verdade é definida pelo termo grego Aleteia, que significa “desocultamento”. O hábito e a pressa moderna cobrem as coisas com o véu do esquecimento. O encontro estético funciona como uma fissura nessa anestesia: o que estava esquecido dá um passo à frente e se revela diante do olhar atento.
3.4. O Embate entre Mundo e Terra
A obra de arte se estrutura na tensão entre duas forças:
- Mundo: O horizonte histórico, cultural e de significados humanos.
- Terra: A matéria-prima bruta (a cor, o som, a pedra) que resiste à racionalização.
A arte é o palco onde o Mundo ilumina a Terra, e a Terra dá abrigo ao Mundo, gerando a iluminação da verdade.
4. Conclusão Geral
O ensaio conclui que o amadurecimento e a transformação do olhar mudam a experiência humana do real. Os objetos ao nosso redor não são estáticos; a percepção sobre eles se transforma. Quando o homem se liberta da pressa utilitária, a beleza e a verdade de uma cor ou de um objeto deixam o estado de esquecimento e se desocultam, provando que o extraordinário habita o que sempre esteve presente.
#pracegover A imagem é composta por três fotografias que mostram a mesma cena com pequenas variações. O enquadramento é um close-up das mãos de uma pessoa segurando um giz de cera vermelho. A pessoa tem as unhas pintadas de um vermelho vibrante, com acabamento fosco. Elas são longas e amendoadas. O giz de cera vermelho que a pessoa segura tem algumas marcas de uso, como se tivesse sido apontado. Atrás das mãos da pessoa, há um paninho de crochê em um tom bege claro, com uma textura intrincada e padrões vazados. Ele cobre uma superfície de madeira escura. No canto superior direito de cada fotografia, há uma caixinha de giz de cera aberta. A caixinha é de papelão e tem uma estampa que remete à década de 90. Ela contém giz de cera de várias cores, como roxo, preto, marrom, laranja, branco, verde e azul escuro. Os giz de cera estão organizados em fileiras dentro da caixinha. As três fotografias são muito semelhantes, mas têm pequenas diferenças de iluminação e nitidez. A primeira fotografia é um pouco mais escura do que as outras.