O ex-presidente Jair Bolsonaro deixou o cargo em 2022, mas continua a influenciar diretamente a vida política e social do país. Alvo de inúmeras investigações e críticas, seu legado é marcado por episódios de preconceito, discursos de ódio, ataques a instituições democráticas e políticas que, segundo especialistas, prejudicaram a economia, o meio ambiente e a saúde pública.
Durante seu governo, Bolsonaro foi acusado de minimizar a pandemia da Covid-19, atrasando a compra de vacinas e defendendo tratamentos ineficazes, postura que, segundo estudos, contribuiu para o agravamento da crise sanitária que custou centenas de milhares de vidas no Brasil.
No campo ambiental, seu governo ficou internacionalmente conhecido pelo avanço do desmatamento na Amazônia, pelo enfraquecimento de órgãos de fiscalização e pelo incentivo à exploração irregular de terras indígenas, medidas apontadas por especialistas como desastrosas para o equilíbrio climático global.
Politicamente, Bolsonaro se destacou pelo uso constante de declarações preconceituosas contra mulheres, negros, povos indígenas e a Comunidade LGBT. Seu discurso agressivo, frequentemente acusado de estimular a intolerância, aprofundou a polarização social e gerou episódios de violência motivados por ideologia.
Além disso, a Justiça Eleitoral declarou o ex-presidente inelegível até 2030, após comprovar que ele utilizou a máquina pública para espalhar desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro, numa tentativa de deslegitimar o processo democrático.
Mesmo fora do cargo, Bolsonaro segue ativo como liderança de extrema-direita, mobilizando apoiadores e utilizando sua influência política em benefício próprio e de seus aliados. Para críticos, sua atuação representa uma ameaça constante à democracia e à convivência pacífica no país.
STF marca para 2 de setembro julgamento de Bolsonaro na trama golpista
Brasília – O ministro Cristiano Zanin, presidente da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), agendou para o dia 2 de setembro, às 9h, o início do julgamento da Ação Penal 2668, que tem como alvo o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete aliados, todos acusados de participação em uma tentativa de golpe de Estado.
Zanin reservou oito sessões para a análise do caso, sendo seis delas extraordinárias, realizadas fora do horário habitual da Primeira Turma. O cronograma prevê sessões nos dias 2 (manhã e tarde), 3, 9, 10 e 12 de setembro.
Participarão do julgamento o relator Alexandre de Moraes e os ministros Cristiano Zanin, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Flávio Dino. Como é de praxe em julgamentos de mérito presenciais, as sessões serão transmitidas ao vivo pela TV Justiça, Rádio Justiça e pelo canal oficial do STF no YouTube.
O caso
A Ação Penal 2668 é considerada a mais avançada entre os processos relacionados à trama golpista denunciada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que aponta Bolsonaro como líder do chamado núcleo “crucial” – grupo que teria arquitetado o plano para manter o ex-presidente no poder mesmo após a derrota nas eleições de 2022.
Segundo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, com base em investigações da Polícia Federal (PF), o plano começou a ser gestado em 2021, quando Bolsonaro teria orientado o alto escalão de seu governo a atacar o sistema eletrônico de votação, com o objetivo de desacreditar as urnas e criar um ambiente propício à ruptura democrática.
A denúncia sustenta que a tentativa de golpe culminou no 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Entre as provas apresentadas estão minutas de um decreto golpista encontradas em endereços ligados aos investigados, além de rascunhos de planos batizados de “Luneta”, “Copa 2022” e “Punhal Verde Amarelo”. Documentos apontam que o complô chegou a prever até mesmo sequestro e assassinato de autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e o vice eleito Geraldo Alckmin.
Os réus
O núcleo 1 da ação penal é formado por oito acusados:
- Jair Bolsonaro, ex-presidente da República;
- Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
- Almir Garnier, ex-comandante da Marinha;
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do DF;
- Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI);
- Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
- Walter Braga Netto, ex-ministro e candidato a vice de Bolsonaro em 2022;
- Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência.
Todos foram denunciados pela prática de cinco crimes:
- organização criminosa armada,
- golpe de Estado,
- tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito,
- dano qualificado e
- deterioração de patrimônio tombado.
As penas somadas podem ultrapassar 30 anos de prisão.
Defesas
O julgamento foi marcado após a entrega das alegações finais pelas defesas, encerrada em 13 de agosto.
A defesa de Bolsonaro classificou a acusação da PGR como “absurda” e tratou o caso como um “golpe imaginado”. Já os advogados dos demais réus, em sua maioria, evitaram negar a existência de uma conspiração golpista, mas concentraram esforços em tentar desvincular seus clientes do núcleo de decisão e execução do suposto complô.
Todos pediram a absolvição.
O que está em jogo
O julgamento é considerado um dos mais importantes da história recente do STF e deve definir não apenas o futuro político de Bolsonaro e seus aliados, mas também o alcance jurídico das consequências do 8 de janeiro, episódio que marcou um dos maiores ataques à democracia brasileira desde a redemocratização.
Por Leila Pizzotti
Foto – Lula Marques
Com Informações – Agência Brasil