O cerne da falsidade ideológica e espiritual desse fenômeno. Quando alguém nega a própria condição humana e a sua identidade mais profunda para caber em uma narrativa de conveniência, essa pessoa destrói o próprio eixo ético. Quem é capaz de aniquilar a própria verdade por aceitação ou lucro, de fato, não possui âncora moral nenhuma e amanhã trairá qualquer outra promessa — inclusive a fé que professa.
O espetáculo do “ex-travesti que virou pastor” deixou de ser um testemunho religioso para se tornar uma fraude moral e uma indústria lucrativa nos altares modernos. Sob o pretexto de anunciar uma salvação, essas lideranças sobem ao púlpito para descarregar um discurso covarde: usam o próprio passado de dependência química, criminalidade e prostituição para demonizar a identidade trans. Mas a farsa dessa retórica cai por terra quando analisamos o caráter de quem prega: um indivíduo capaz de negar a própria condição humana e a sua verdade mais profunda é, por definição, alguém sem espinha dorsal moral. Quem sabota a si mesmo para caber em um projeto de poder é um perigo público, e a sua suposta conversão é apenas a última versão do seu oportunismo.
Este texto é um protesto urgente e um alerta contra a ingenuidade de se dar palco e autoridade a quem fez da mentira sobre si mesmo a sua principal ferramenta de trabalho.
A Condição Humana Não É Ex-Condição: O Erro de Diagnóstico do Oportunista
Ser trans ou travesti não é uma escolha, um partido político ou um desvio de conduta; é uma condição humana. É a forma como o indivíduo existe no mundo. Portanto, a narrativa do “ex-trans” é uma impossibilidade ontológica e científica.
Uma pessoa pode legitimamente dizer que é ex-drogada, ex-traficante, ex-assaltante ou ex-anarquista. Tudo isso diz respeito a práticas, escolhas, vícios e condutas que podem ser abandonados através da reabilitação e da mudança de comportamento. Mas ninguém é “ex-humano”. Quando um pastor afirma ter deixado de ser trans, ele prova uma de duas coisas: ou nunca foi trans e era apenas um oportunista usando a identidade como disfarce na marginalidade, ou está performando uma mentira grotesca no altar para comprar a aceitação de uma plateia intolerante.

A Traição de Si Mesmo: Quem Nega a Própria Verdade Negará a Deus
A verdade não nos anula. Pelo contrário: no confronto com a luz e com o sagrado, o ser humano ganha consciência plena de quem realmente é. A verdadeira espiritualidade liberta o indivíduo para viver sua essência com dignidade, sem máscaras.
O “pastor ex-trans”, contudo, caminha na direção oposta. Ele baseia seu ministério na autonegação. Ele precisa odiar quem foi, amputar a sua história e mentir sobre a sua natureza para continuar recebendo aplausos e dízimos. Esse mecanismo escancara uma assustadora falta de caráter. Um homem capaz de trair a própria carne, de cuspir na própria trajetória e de redefinir a própria identidade ao sabor da conveniência financeira e social é um homem imprevisível e perigoso. Quem tem a capacidade de negar a si mesmo com tanta facilidade não possui lealdade a nada: uma hora ou outra, quando a conveniência mudar, ele será perfeitamente capaz de negar o próximo, a igreja e o próprio Deus.
O Perigo do Púlpito: O Cuidado Necessário com os Falsos Profetas.
As instituições religiosas deveriam acender o sinal de alerta máximo em vez de estender o tapete vermelho para essas figuras. A Bíblia exorta exaustivamente sobre o perigo dos lobos em pele de cordeiro e dos homens de lábios falsos. Dar autoridade espiritual a alguém cujo maior mérito é ter encenado a destruição da própria identidade é uma cegueira institucional.
O filósofo Paul B. Preciado nos lembra que o sistema conservador adora premiar corpos domesticados, usando o “ex-trans” como um troféu de caça para provar que a norma venceu. Mas o que a igreja está aplaudindo não é um milagre; é a consagração do cinismo. Como bem aponta a filósofa Marlene Wayar, a identidade travesti exige coragem e integridade para existir em um mundo violento. O pastor que foge dessa verdade e adota o roteiro da culpa não se converteu à virtude; ele se converteu à covardia.
O Caráter Mede-se pela Verdade
Mudar de conduta e abandonar o crime são vitórias que merecem respeito. O que não se pode tolerar é a canalhice de transformar uma reabilitação comportamental em um ataque à dignidade de toda a população trans.
Travestis e pessoas transexuais honestas, que trabalham, estudam e constroem suas vidas com retidão, não precisam do aval de líderes religiosos falidos moralmente. O púlpito que abriga o “ex-trans” e valida o seu preconceito está alimentando uma bomba-relógio teológica e humana. A dignidade de existir pertence àqueles que sustentam a sua verdade diante do mundo. Quem vive da mentira e da negação de si mesmo não tem moral para guiar nenhuma alma.

Referências Bibliográficas
- BÍBLIA SAGRADA. Epístola aos Gálatas (6:7) – “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” e Evangelho de Mateus (7:15-16) – “Acautelem-se dos falsos profetas (…) Vocês os reconhecerão por seus frutos.”
- WAYAR, Marlene. Travesti: Uma teoria loca. Buenos Aires: Ediciones n-1, 2018. (Aborda a integridade e a corrupção da subjetividade quando indivíduos trans são forçados a performar narrativas de trauma e culpa para o consumo cisgênero).
- PRECIADO, Paul B. Um apartamento em Urano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. (Sobre o suborno social que o sistema oferece a corpos dissidentes para que eles se normalizem e se tornem guardiões da própria opressão).
- KIERKEGAARD, Søren. O Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra como Escritor. (O filósofo existencialista cristão discute como a multidão e a falsidade institucional anulam o indivíduo, mostrando que a verdade exige que o homem seja fiel à sua própria existência diante de Deus, sem ilusões coletivas).
Imagem 1: #PraCegoVer: Ilustração em estilo desenho a lápis com aquarela e guache. Em uma igreja, uma mulher de vestido rosa e jaqueta preta posiciona-se diante de um grupo diverso de pessoas protegido por uma cúpula luminosa em cores do arco-íris. Acima dela, líderes religiosos aparecem alarmados em um púlpito que se desfaz, enquanto ela responde às acusações com um discurso sobre amor, verdade e acolhimento. A cena simboliza o confronto entre exclusão e inclusão, defendendo a proteção da diversidade e o respeito às diferenças dentro dos espaços de fé.
Imagem 2: #PraCegoVer: Ilustração em estilo desenho a lápis com aquarela e guache. Em um campo aberto e florido, uma mulher de cabelos longos veste jaqueta preta e vestido rosa enquanto fala em um púlpito transparente. Ao seu lado, um objeto decorado com as cores do arco-íris está apoiado no chão. Em um balão de fala, ela afirma: “Pastora sim e trans também.” A cena transmite confiança, representatividade e a defesa da diversidade em espaços de fé e liderança religiosa.
Jhullia Matos
25/06/2026