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Em atividade de rotina checava hoje postagens em nossa página, LBGT Espírita, e um título chamou a atenção “Contribuindo com uma ideia para prevenção da homofobia”. Pode ser que a ideia em voga já esteja sendo discutida pelos movimentos da categoria, mas eu ainda não a conhecia e achei a proposta interessante.

Trata-se do posicionamento do psiquiatra Telmo Kiguel de que os atos discriminatórios devem ser definidos cientificamente. Segundo este, tudo o que causa sofrimento ao outro é doença, neste sentido o ato discriminatório poderia ser classificado, se não como doença em si, pelo menos como sintoma.

Vejamos seus posicionamentos em um debate realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do sul, no dia 08 de setembro 2016:

“Hoje, na sociedade, assinala o psiquiatra, há somente duas instâncias que auxiliam a inibir as condutas discriminatórias: a ação organizada dos grupos discriminados e de seus apoiadores e o Direito que já tipifica como criminosa determinadas condutas como o racismo. No entanto, ressalta, o psiquismo presente em todo o processo discriminatório ainda requer um estudo mais aprofundado visando a busca de um diagnóstico compatível com a tipificação de um crime dada pelo Direito”.

se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a essa conduta? Há cerca de dez anos, consegui instalar na Associação Brasileira de Psiquiatria esse projeto sobre discriminação.

A ideia é que, se não se definir e não se diagnosticar a conduta do discriminador, especialmente do racista, do machista e do homofóbico, continuaremos sem um trabalho de prevenção nessa área.

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14/09/2016 – PORTO ALEGRE, RS – Entrevista com Telmo Kiguel. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Em um mundo ideal se definiria/diagnosticaria o discriminador e, uma vez definido, ele sofreria o impacto desta definição e isso inibiria a sua conduta. Na década de 70, homossexuais e suas lideranças pressionaram a ciência, por meio da Associação Americana de Psiquiatria e a homossexualidade deixou de ser classificada como doença. Posteriormente, aqui no Brasil, grupos discriminados pressionaram a Ciência Jurídica e conseguiram, por exemplo, que a conduta discriminatória racista e machista passassem a ser definida como crime. O conhecimento de uma definição científica psiquiátrica ou jurídica pode inibir condutas sintomáticas ou criminosas. O que estou propondo é que a ciência seja acionada, como já foi em outros episódios, para prevenir condutas discriminatórias. A necessidade do diagnóstico deve-se ao fato de que essa é uma conduta que faz o outro sofrer. Na medicina ou na saúde pública de um modo mais geral o que faz o outro sofrer pode ser um vírus ou pode ser outra pessoa. Uma pessoa viciada em drogas sofre e faz sua família e amigos sofrerem muito. Isso é uma doença. Se a minha conduta faz outras pessoas sofrerem, ficarem deprimidas, etc., estamos lidando com uma conduta doentia. A ideia é investigar o agente causador, defini-lo e diagnosticá-lo. Creio que só quando se conseguir defini-lo começarão a diminuir as ocorrências. A educação, por si só, não é suficiente para prevenir. No tempo da ditadura, uma das frases que era pichada nos muros era “A palavra cão não morde”. Se eu falar em gripe, você não ficará gripado por causa disso. Os conservadores acham que, se os professores falarem em homossexualidade nas escolas, os estudantes vão se tornar homossexuais. Isso é assim porque dentro dos templos religiosos que eles frequentam, a homossexualidade é definida como algo perverso e imoral e o papel das mulheres é ficar numa posição secundária em relação ao homem. Para muita gente, a homossexualidade ainda é um tabu que não pode ser objeto de conversas nas escolas.

NOTA:

Telmo Kiguel é médico psiquiatra e coordenador do Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Esse projeto tem como objetivo básico a apropriação do estudo pela Psiquiatria da Conduta Discriminatória, cuja origem é basicamente psicológica e produz sofrimento mental e/ou físico no discriminado podendo chegar, em casos extremos, ao suicídio.